E o Coxa com isso?

O Atletiba 353 terminou 2-1 para o Coritiba, mantendo um tabu de 5 anos no Couto Pereira e colocando o Coxa na rota de colisão do Londrina (por essa a FPF não esperava), cujo encontro será justamente na última rodada do primeiro turno. Enquanto o Atlético discute se o Estadual vale ou não, se o time Sub-23 é bom ou não, o Coxa terá um adversário difícil no primeiro duelo na busca pelo tetra.

Não vou falar do jogo que não vi, mas não vou me prender só ao resultado. A verdade é que o Coritiba se deixou levar um pouco pelas opções atleticanas, pro bem e pro mal. Explico: tanto faz o time que entraria em campo pelo rival; era Atletiba, valia a liderança do campeonato. Por isso, nem a frustração da (exagerada) expectativa por goleada é correta, nem deve-se deixar de entender o que faltou para tanto. Afinal, vem aí um Brasileirão e, salvo se o controle de jogo da equipe estiver extremamente afiado, a queda de desempenho nas segundas etapas dos jogos deve ser melhor avaliada.

Não foi o primeiro jogo em que o Coxa reduz a marcha no segundo tempo – e afirmo isso pelos relatos das rádios que ouvi, me permitindo ser corrigido pelo amigo leitor. O Paratiba foi outra prova. Contra o Toledo, no entanto, o time foi avassalador na primeira etapa e caiu de ritmo no segundo tempo, permitindo-se até tomar um gol – o que também aconteceu no clássico. É controle total de jogo ou descompasso? Por ora, vamos entender que seja o primeiro. Afinal, também deve se pensar se uma goleada no clássico seria realmente benéfica ao Coritiba. Em 2011, contra o Palmeiras, não foi; depois, pra que despertar um rival em desleixo no Estadual?

Sendo mais crítico, vamos assumir que seja. O teste contra um Atlético desfigurado, três pontos acima da zona de rebaixamento e com saldo negativo, foi abaixo da média. Em dois minutos, aproveitando-se da inexperiência do rival, o time abriu 2-0. Depois, Deivid se envolveu em confusão e foi expulso novamente (já havia sido contra o Toledo). Acabou tomando o gol muito mais pelo brio dos meninos atleticanos do que por uma real ameaça, pelos relatos. Mesmo assim, com 10 contra 10, o jogo foi mais equilibrado. Agora, enfrentará um ataque forte e um time mais maduro, com torcida grande contra. O Londrina de Germano e Celsinho, com o Café lotado, não é de se matar com a unha.

O Coritiba de Marquinhos Santos tem sido pragamático. Há uma expectativa de se ver mais do que tem sido apresentado, mas enquanto o time estiver vencendo, não há muito espaço para questionamentos. Mas e se o fio virar? Impressionar é necessário ou não? Se os resultados faltarem a reflexão sobre o nível técnico para o Brasileiro vai aparecer. E aí o Coritiba pode se deixar levar novamente pelas decisões que os rivais tomaram para o Estadual.

Exclusivo: por dentro do CT do Caju

Não são unanimidade no Atlético as estratégias criadas pela diretoria do clube, tanto para o futebol, quanto na comunicação. Silentes, funcionários e jogadores demonstram dois sentimentos: descontentamento e medo. Sim, medo: de demissão e perseguição. Entre comissão técnica e jogadores, de serem queimados no mercado.

Nos últimos dias, tive acesso a jogadores e funcionários do clube, que aceitaram falar comigo, sob a condição de preservar os nomes. São pessoas que estão descontentes com o andamento atual na gestão atleticana, mas, com medo de sofrerem alguma sanção por parte da diretoria, não querem se expor. Os detalhes do convívio dentro do CT foram passados pelos próprios, com a condição de manterem-se sem exposição.

A restrição à imprensa no Atlético não é criticada apenas pela própria imprensa, patrocinadores e parte da torcida; dentro do CT do Caju, atletas e funcionários reclamam da medida e mais: da fritura de alguns jogadores no mal-sucedido time Sub-23 – que, ressalve-se, é parte de uma interessante estratégia de pré-temporada, que se perde dentro do enclausurado CT. Falar com qualquer jornalista é ato passível de multa, garantem.

Um funcionário com cargo influente no CT do Caju falou do descontentamento da comissão técnica com a decisão, já consagrada dentro dos portões no Umbará, de que o time principal não entre nos jogos do Paranaense, nem mesmo no segundo turno. “Por mim, trabalharíamos com um time só e iria testando. Mas não tem conversa”, revelou-me, pedindo sigilo. O Atlético articula amistosos. Nesta semana, fará um jogo-treino contra um mistão do Figueirense (que tem jogo decisivo com o Criciúma dois dias antes). O clube procurou adversários na Argentina e no Chile e até cogitou-se jogar contra o Bahia e o Vitória, que estão parados após as eliminações na Copa do Nordeste, mas nada foi confirmado. “Até a Copa do Brasil vai ser assim.” Perguntado porque, mesmo com um cargo influente não é ouvido e aceita as determinações, o funcionário em questão respondeu que, apesar dos pesares a estrutura e projeção do clube são boas – leia-se também um bom salário e em dia.

Um dos jogadores é um dos mais experientes do elenco. Confidenciou que há muita pressão dentro do próprio CT pela má campanha do Sub-23 no Paranaense. “Os meninos ficaram, você sabe como é, as coisas não estão indo bem, tem pressão.” O mesmo atleta ainda falou do relacionamento com o presidente do clube, Mário Petraglia: “Ele é de lua. Um dia chega e diz que está tudo bem. No outro, fica nervoso, esbreveja, muda tudo, manda dois, três embora.” O jogador ainda relatou que não há muita liberdade de argumentação com o dirigente: “Ninguém quer bater de frente com ele. Todos têm medo.”

O mesmo atleta ainda disse que os jogadores que voltaram da Espanha gostariam de jogar algumas partidas no Paranaense. “Uma competição é totalmente diferente. Um jogo sim, um não. Jogador quer jogar, né?” Perguntado se o grupo procurou a direção, o entrevistado disse que não. “Se ele bota uma coisa na cabeça, vai até o final”, disse, referindo-se a Petraglia, que, segundo o mesmo, anda um pouco ausente do CT, diferente do que acontecia no dia a dia em 2012. “Ultimamente não [tem estado no CT], por conta do negócio da Arena. Ano passado ele aparecia no clube, fazia reunião. Mas esse ano, com a pressa pela obra, a gente sabe que ele tem viajado muito.”

A orientação para os jogadores não falarem com a imprensa foi transmitida pelo diretor de futebol Antônio Lopes. Até mesmo quem chega tem que entrar na dança. É o caso de Jean Chera. A promessa que já rodou por Santos e Flamengo chegou à Baixada na semana que passou. Durante as negociações, seu pai, Celso Chera, falou sobre as possibilidades. No mesmo dia, à noite, foi alertado pelo diretor das categorias de base do Atlético, Jorge Andrade, de que não poderia falar mais nada, “sob pena de melar as negociações.” Dias depois, foi a vez do empresário de Jonas, ex-Coritiba, Felipe Pereira ouvir o mesmo da diretoria atleticana, já que a negociação vazou na imprensa.

O experiente jogador que conversou com a reportagem explicou como tudo se deu dentro do CT. “Houve uma reunião. O presidente avisou: a TV não vai divulgar jogos, o valor é muito baixo, não vai dar lucro pro clube. Ninguém pode falar com a imprensa.” O site oficial é usado como meio de comunicação único – e, como toda fonte unilateral, dá apenas uma versão dos fatos.

Outro que resolveu desabafar é um funcionário com anos dentro do Atlético. Sem o contato com a imprensa, vê uma fritura em cima de quem está no Sub-23: “O Arthur Bernardes é bom técnico e boa pessoa. O time é que é fraco mesmo.” Em viagem pelo interior do Paraná nas rodadas do Estadual, a mesma pessoa confessou a pressão dentro do clube para que os profissionais joguem algumas partidas do campeonato. Sem poder expressar livremente e com ordens para que ninguém se relacione com a imprensa, a pessoa confessou ter receio até mesmo em ser fotografada ao lado de repórteres.

Quais os malefícios, afinal, ao Atlético? Toda empresa tem suas diretrizes e o gerenciamento “mão de ferro” da atual diretoria do clube é apenas um entre os tantos métodos de gestão, certo? Quase. Ao se criar um ambiente tenso – seja em função dos maus resultados do sub-23, seja em função das restrições de liberdade – o clube pode sentir os reflexos em campo.

O modelo autoritário inibe a criatividade, ferramenta-mãe em um esporte como o futebol. Os ruídos em comunicação, gerados pelo difícil acesso à informação e pelo descontentamento de quem quer falar, criam tumultos no ambiente. Grupos de atletas são heterogêneos, com muitas diferenças culturais e sociais entre as pessoas que os compõe. Em um ambiente mais aberto, isso já é problemático; que dizer de um local de trabalho com pouca liberdade de expressão?

Por fim, a auto-realização, a sensação de estima e de pertencer a um grupo são propulsores para o sucesso de uma equipe. Em um meio com a vaidade exacerbada como o futebol, onde cada atleta precisa ser mais que o outro dentro e fora de campo, não aparecer é prejudicial; não ser ouvido pelos comandantes é excludente. Como os valores no futebol são muito avaliados pelos resultados em campo, uma sequência de triunfos pode transformar tudo isso em mito, assim como a má fase reforça a tese. No entanto, acima disso, é importante refletir sem a moral torta movida pelos resultados: qual caminho o clube está tomando ao agir assim com seus próprios funcionários?

  • Arremate:

“Uma vitória em um Atletiba encobre muitos defeitos e uma derrota causa problemas que não existem”, disse o ex-jogador e vereador Paulo Rink antes do clássico de domingo. A reportagem acima foi apurada na semana do clássico e pretende discutir algo mais profundo do que um resultado isolado, seja de vitória ou derrota para qualquer lado. Por isso, a publicação dela se deu durante o andamento da partida – basta olhar o horário da publicação.

Atletiba #353: o duelo dos ícones

Um representa uma mudança da água para o vinho, numa relação conturbada, mas que reposicionou o status quo do Furacão nacionalmente; outro é um ídolo em campo, que saiu jovem e se consagrou fora do Coxa, mas voltou trazendo consigo um orgulho imenso de ter escolhido o clube do coração em detrimento de propostas melhores.

Na história recente do Atlético, ninguém é mais importante que Mário Celso Petraglia.

Na história recente do Coritiba, ninguém é mais importante que Alex.

No domingo, ambos vão voltar a disputar um Atletiba. Será também um choque de ideais: a tentativa de Alex em ser campeão pela primeira vez com a camisa alviverde contra a estratégia de Petraglia em preterir o Estadual por uma pré-temporada. Com isso, mandará uma equipe Sub-23 para o jogo. Alex é midiático, atrai atenções; Petraglia é avesso à mídia – desde que ela o questione.

Alex simboliza o Coritiba de hoje melhor do que qualquer outra pessoa. Petraglia é o homem a frente do Atlético, gostem ou não, concordem ou não – e esse é exatamente o seu estilo. Eles já se encontraram antes.

Em 1995 ambos começaram a ganhar notoriedade. Alex deixou o Coxa no início de 1997, em tempo de disputar dois Atletibas pelo Estadual. Rodou o Mundo: Palmeiras, Flamengo, Cruzeiro, Parma, Fenerbahçe. Petraglia foi presidente do Atlético de 1995 a 1998, deixando o cargo para Nelson Fanaya, Ademir Adur e o campeão brasileiro Marcus Coelho. Voltou em 2002, dividindo a presidência com João Augusto Fleury da Rocha, deixando o clube em 2008, depois de eleger – e romper – com Marcos Malucelli. Voltou no ano passado.

Ambos têm vantagem nos duelos contra o rival. Domingo, um em campo, outro nos bastidores, escreverão mais uma página desta rivalidade sem fim.

*Somente partidas pelo Coritiba

Atletiba #353: nunca os rivais foram tão a antítese do outro

O colorido das arquibancadas sempre foi um choque: o contraste do vermelho contra o verde, do branco com o negro. Culturalmente, as duas equipes também são historicamente opostas: o atleticano é mais inflamado, apaixonado incondicional; o coxa-branca é mais exigente, defende o orgulho de sua história. Foram fundados em bairros opostos no mapa da cidade. Ora similares pelo sofrimento (a torcida do Coritiba tornou-se mais aguerrida de 2004 para cá), ora similares pelas glórias (a conquista de 2001 também mudou o Atlético, tornando seus torcedores mais “cornetas”), Atlético e Coritiba sempre foram diferentes. Mas nunca tanto como no clássico do final de semana no Couto Pereira.

  • Idade e experiência

A criação de uma equipe “Sub-23” em 2012 já denunciava: o Atlético iria usar o Estadual para testar seus jovens valores. Do lado coxa-branca, uma série de reforços com rodagem em outros clubes foram constituindo o elenco: Alex, Deivid, Lincoln. Ao se verificar as duas escalações nas partidas que antecederam ao 353, os números tornam isso evidente – as idades estão entre parênteses.

O Coxa que fez 7-0 no Rio Branco teve Vanderlei (29) no gol, Leandro Almeida (25), Pereira (33), Chico (26) e depois Junior Urso (22) e Gil (25), depois Geraldo (22) na linha de defesa, Willian (23), Patric (23), Robinho (25), depois Lincoln (34) e Alex (35) no meio e Rafinha (29) e Julio César (32*) no ataque. Uma média de idade de pouco mais de 27 anos, incluindo os substitutos.

O Furacão que fez 3-1 no J. Malucelli teve Santos (22) no gol,  Léo (21), Erwin (18), Bruno Costa (23) e Héracles (20) na linha de defesa, Renato (21), Renan Foguinho (23), Elivélton (20), depois Marcos Guilherme (17) e Harrison (20) no meio; Coutinho (19) depois Rafael Zuchi (19) e Pablo (20) depois Junior de Barros (19) no ataque. A média de idade é de pouco mais de 20 anos.

A diferença também é clara no currículo dos jogadores. Enquanto o Coxa conta com jogadores com rodagem internacional (Lincoln, Júlio César) e que já ganharam títulos até mesmo com a Seleção Brasileira, como Alex, o Furacão tem uma safra toda nova, com os mais experientes sendo Foguinho, Bruno Costa e Héracles, que já disputaram partidas pelo time principal.

*Fará 33 dois dias depois do clássico.

  • Prioridades

Essa não é segredo pra ninguém: o Coxa persegue um tetracampeonato que não vem desde 1974 enquanto o Atlético menospreza o estadual, priorizando uma pré-temporada de 4 meses sem jogos oficiais (o clube deve usar os titulares somente contra o Brasil de Pelotas, dia 03/04).

Cada um aposta numa fórmula diferente para a temporada. O Coxa chegou a esticar a preparação, mas passou a usar os principais jogadores no dia 31/01, na 4a rodada, contra o J. Malucelli. Para o superintendente de futebol do Coritiba, Felipe Ximenes, “não existe time A ou B. Existe um elenco forte, que possa disputar qualquer campeonato.” A fórmula, posta em funcionamento a partir de 2010, rendeu ao clube um brasileiro da Série B, três estaduais e dois vice-campeonatos da Copa do Brasil. Em 2013, são 9 jogos oficiais, com 6 vitórias e 3 empates.

A Copa do Brasil é a prioridade para o Atlético, de acordo com o que se ouve nos arredores do CT do Caju. Não há confirmação oficial, mas o time principal só passará a jogar pra valer em 2013 na primeira partida – e já decisiva – na Copa, contra o Brasil em Pelotas-RS. Enquanto o time “Sub-23” patina e cumpre tabela no Estadual, o time principal disputou uma competição amistosa internacional, a Marbella Cup, na Espanha. Venceu o Ludugorets Razgrad, o Dínamo de Kiev e o Dínamo Bucareste para ficar com a taça. Em paralelo, o elenco secundário conquistou 2 vitórias em 9 jogos na competição oficial – pela qual se disputará o Atletiba 353. No CT do Caju, ninguém é autorizado a falar sobre a estratégia do clube para a temporada.

  • Ídolos

Alex é o ídolo máximo do Coritiba e voltou para o clube para tentar ser campeão pela primeira vez com a camisa coxa-branca. O meia mesmo reconhece que é um “ídolo sem sê-lo” ou “selo”, como queiram. O valor de Alex é pelo que fez fora de campo, nunca esquecendo de citar o Coxa; em campo, traz a pressão de tentar as primeiras conquistas no clube que o formou. Além de Alex, Rafinha e Vanderlei são os jogadores mais queridos e identificados com a massa alviverde.

Pressão existe também no Atlético. Na vitória contra o J. Malucelli, pressionados pelas más atuações com a camisa atleticana no Paranaense, os jogadores ouviram da torcida somente o nome do goleiro Santos. Os gritos de incentivo partiram muito mais pelo que o jovem goleiro fez pelo clube na Copa São Paulo de 2009, quando foi vice-campeão, do que pela fase atual. No Atlético do Atletiba 353, não há ídolos rubro-negros – porém, as vagas estão em aberto.

  • Exposição midiática

Outro ponto em que os clubes tem posicionamentos completamente opostos. Se de um lado o Atlético optou por não fechar o contrato de transmissão de seus jogos e tem orientado seus jogadores e funcionários a não falarem com a imprensa, o Coritiba já teve 4 dos seus 9 jogos exibidos em rede estadual aberta e também um amistoso em rede fechada nacional, contra o Colón-ARG; na TV, o Atlético só apareceu na Marbella Cup, transmitida em TV fechada.

No Coxa, aproveita-se o espaço deixado pelo Atlético para explorar os canais de imprensa. O clube expõe patrocinadores muito mais que o rival – que recebeu críticas por isso. Se a exposição tem benefícios, também permitiu um episódio que chamou a atenção negativamente neste início de ano: a entrada de Lincoln sobre Botinelli, filmada e discutida em todo o país. Por outro lado, enclausurado, nem mesmo a inédita contratação do ex-Barcelona Fran Mérida pelo Atlético virou notícia nacional em larga escala.

  • Farpas nas diretorias

Homens de negócios bem-sucedidos, Vilson Ribeiro de Andrade e Mário Celso Petraglia já estiveram sentados à mesma mesa, mas, ultimamente, passaram a trocar provocações de maneira direta, desde o desacordo para que o Atlético de Petraglia jogasse no estádio do Coritiba de Vilson.

Petraglia por Vilson: “O dia em que eu ler carta do Petraglia pode me internar. Eu estarei indo consultar o psiquiatra.”

Vilson por Petraglia: “O ‘homem bom’ se revelou um traidor! Mesmo com meus 68 anos, faltam-me palavras para expressar a falta de ética do Sr.Vilson.”

 

Luis Carlos, sobrevivente da queda em 2011, reencontra o Arapongas

Vinte e três de abril de 2011. Um dia que todo paranista gostaria de esquecer – mas que, como toda lição na vida, é importante lembrar. Certamente o momento mais difícil da história do clube. Ao empatar em 2-2 com o Arapongas, em casa (vídeo do Notícia FC abaixo), o Tricolor era rebaixado para a segunda divisão estadual, pela qual jamais havia passado – nem mesmo quando surgiu, em 1989, quando herdou uma das vagas de Colorado e Pinheiros na elite paranaense para 1990.

Dois anos depois, Paraná e Arapongas se reencontram. Agora, a situação é outra: o Tricolor voltou a ser postulante ao título, podendo se garantir na final se vencer o turno; o Arapongas, time bem sucedido nas últimas temporadas, anunciou que deve fechar as portas ao final da temporada.

 

Um dos poucos sobreviventes da queda traumática é o goleiro Luis Carlos. Aos 25 anos, seis deles dedicados ao Paraná, o jogador nascido em Curitiba esteve nas cinco primeiras partidas daquele campeonato. Depois, foi emprestado ao Ypiranga-RS, pelo qual chegou a fazer a semifinal do Gauchão 2011 contra o Grêmio, sendo eliminado. Voltou a tempo de ver a queda paranista com Thiago Rodrigues no gol, um colega que também seguiu no Tricolor após o rebaixamento. Titular da equipe mesmo com o retorno do ídolo Marcos, Luis Carlos bateu um papo comigo na manhã deste sábado, sobre as mudanças no clube e as histórias desses dois anos.

Luis Carlos: “Hoje a gente tá muito bem” (Foto: Divulgação)

O que mudou no clube de 2011 pra cá?

Luiz Carlos – Com a nossa queda, a diretoria se conscientizou e viu que tinha que trazer jogadores mais experientes. Naquele tempo tinha muita molecada. A gente acabou caindo. Em 2012 já foi diferente. A gente começou mesclando jogadores, com o Lucio [Flávio, meia] e o Anderson [zagueiro], dando uma base boa. E em 2013 a gente manteve uma base e estamos fazendo um bom campeonato. Tanto na zaga quanto no meio, tá muito bem. É isso aí, os caras se conscientizaram e a gente tá bem agora.

Mas muitos dos dirigentes daquele ano ainda estão no clube. Mudou o que?

A convivência… olha, o Paulão [Paulo César Silva, vice-presidente], o Celso [Bittencourt, superintendente geral], o pessoal continua o mesmo. Eles sempre procuram dar o máximo deles. O que aconteceu tá no passado. O Paraná tem muitas dividas. Eles tão dando o máximo, mas é difícil. Agora mesmo, teve o caso do Thiago Neves, o empresário dele entrou na Justiça, o Paraná vai ter que pagar 9 milhões. Mas o ambiente é o melhor possível. O que eles tão fazendo é o que eles podem.

Uma coisa que sempre pareceu de fora é que, mesmo com os problemas, os jogadores parecem muito unidos. Afinal, até greve vocês mobilizavam…

Que nem eu falei, o pessoal que chegou, os mais velhos, sempre procura orientar a gente pra fazer a greve, porque é um direito nosso. A gente fazia, às vezes não treinava, não concentrava e ia direto pro jogo. Mas eles [a diretoria] foram se conscientizando. E deram uma posição pro pessoal mais velho que acabou ficando esse ano.

Que posição foi essa?

O pessoal acredita no Paraná, no presidente, nos caras. Eles propuseram um monte de coisas, espero que eles cumpram. Tenho certeza que vai ser um bom ano. Por alguns detalhes a gente não tá na liderança. O pessoal mais velho topou ficar porque o presidente [Rubens Bohlen] disse que ia por a casa em dia e tá cumprindo.

Você já estava no Ypiranga quando o time caiu. Como você recebeu a notícia?

Eu já tava em Curitiba e não pude ir no jogo porque tinha que resolver uns negócios do Ypiranga ainda. Mas foi triste. Cair é complicado. Mas faz parte do futebol. E graças a Deus a gente conseguiu subir invicto [Nota do Blog: na verdade, o Paraná perdeu 2 jogos, para Grêmio Metropolitano (2-5) e Serrano (0-1) já quando havia conquistado o título e o acesso]. Até o Palmeiras caiu, isso faz parte.

Mas o calendário e a sequência de jogos não era moleza.

Era complicado. O Ricardinho fez um excelente trabalho conosco. Teve que montar dois times pra jogar o Paranaense. Jogava quarta, sexta, domingo, terça. Aí veio a Copa do Brasil, a Série B… foi complicado. Mas foi um ano vitorioso, principalmente pra mim. Eu vinha jogando uma, duas vezes por ano e fiz mais de 40 jogos.

E agora, bem diferente dos últimos anos, o time está na briga para ser campeão. Mas já sem os confrontos diretos.

Tem que continuar secando o Coxa, o Jotinha. É torcer pro Atlético fazer uma graça (risos). Contra o Jota o juizão complicou a gente… mas faz parte do jogo. Eu acredito que ainda dá. O Coritiba pega o Atlético e o Londrina. E nós pegamos Arapongas, Cianorte e ACP. Acho que se a gente ganhar os 3, tem chance ainda.

E esse jogo contra o Arapongas, tem gosto de revanche?

A maioria de quem tava aquele ano já saiu. Tem eu e o Thiago. É bom que nem toquem no assunto (risos). Já passou, bola pra frente, vamos esquecer. Vamos jogar amanhã (domingo, 16/02) e ganhar do time que nos derrubou.

O grande clássico do interior do Paraná

Quando o árbitro Felipe Gomes da Silva apitar pela primeira vez, por volta das 22h da noite desta quarta-feira, Operário e Londrina vão mostrar porque é que, dentro de um calendário racional e que atenda as necessidades de todos os clubes, os Estaduais não podem morrer – e devem se adaptar para isso.

Fantasma e Tubarão carregam consigo a marca de hoje fazerem o grande clássico do interior do Paraná. E a despeito da campanha irregular do Operário, são os clubes longe de Curitiba que hoje têm algo a dizer. Situados em duas grandes cidades do Estado 5o PIB do Brasil, ambos tem torcidas numerosas e pretensões de ir além das divisas. Nesta temporada, o Londrina está na frente.

Longe de um tempo em que o café reinava e ajudou a dar três estaduais e um Brasileiro B ao Londrina, e em que o Operário fazia das suas até ganhar o apelido que o identifica, os últimos anos têm sido de alento para alvinegros e alvicelestes. Depois de penarem até na Série B local, hoje pretendem vagas na Série D nacional e na Copa do Brasil. E, junto com Arapongas e Cianorte, vêm se alternando nas disputas para isso. No entanto, OFEC e LEC  têm o bônus de terem camisas tradicionais e torcidas apaixonadas em um Estado que é uma pizza de três sabores: paranaense só no sul, com norte paulista e sudoeste gaúcho.

A história dos confrontos oficiais entre Operário e Londrina vem de 1970, logo após a fusão que fez o Tubarão ser LEC. Até então o regulamento dos Estaduais dividia norte e sul. O primeiro encontro foi em Ponta Grossa, em 22 de fevereiro de 1970. Deu Operário, 4-2.

Em 2012 duelos terminaram com vitória de quem visitava o rival (Foto: Operário.com)

Mas, ao longo dos anos, o Londrina tomou a dianteira nos encontros entre os clubes, que são 38 até aqui. O Tubarão venceu 14, com 14 empates e 10 vitórias operarianas. São 47 gols alvicelestes e 33 alvinegros.

A história entre Operário e Londrina é composta por muitos hiatos. Ora pelos regulamentos malucos da FPF, ora pelo desempenho dos clubes, incluindo o licenciamento do Fantasma, cujo retorno à elite paranaense se deu depois de 10 anos em 2010 – ano em que o Tuba amargava a Série Prata, nome então da segundona paranaense. Os clubes se enfrentaram em 15 Estaduais (1970, 74 a 76, 79 a 83, 89 a 93 e 2000) e se reencontraram em 2012 com vitórias para os visitantes: Londrina 2-0 em PG e Operário 1-0 no norte. Apesar de serem tantos empates quanto o maior número de triunfos, o primeiro deles levou 12 anos para acontecer: 1-1 em 02 de maio de 1982, depois de um longo tempo em que só se ganhava ou perdia nos duelos.

Os clubes também se encontraram pela Série B Brasileira em quatro ocasiões. Em 1991 o Londrina levou as duas 3-1 e 1-0; dois anos depois, em 1993, os times protagonizaram dois 0-0. Apesar dos encontros valerem por um torneio nacional, pode-se dizer que o jogo mais importante entre os times aconteceu no meio dos quatro jogos, pelo Paranaense de 1992. Em 8 de novembro daquele ano, no quadrangular semifinal do Estadual, o LEC fez 3-1 e ganhou o direito de enfrentar o Atlético nas semifinais olímpicas. Venceria e encontraria o União Bandeirante (que eliminara o Paraná Clube) na última decisão caipira no Paraná, vencida pelo Tubarão.

Com exibição na TV, o jogo entre Operário e Londrina de 2013 ocupa um espaço de valorização dos sucateados estaduais. Que precisam repensar a fórmula, dando chance de crescimento aos que merecerem em campo e calendário e estrutura aos que sobrarem.

Afinal, o futebol é feito de boas histórias, como a que promete ser escrita no Germano Kruger hoje.

Por falar em boas e histórias, relembre o quadro Que Beleza de Camisa! com Operário e Londrina clicando no nome dos clubes. Você não vai se arrepender!

Conheça Fran Mérida, reforço espanhol do Atlético

O Atlético confirmou nesta segunda a contratação do meio-campista espanhol Fran Mérida, de 22 anos, que estava no Hércules, da Espanha.

O jogador começou no Barcelona em 2006, numa geração que tinha Messi, Iniesta e Xavi. Mérida atuou pouco com o trio famoso do Barça, se transferindo para o Arsenal, caminho feito um ano antes por Césc Fabrégas. Para isso, pagou uma multa de 3,2 milhões de euros. Nos Gunners, fez apenas 16 jogos oficiais em duas passagens, um deles pela Liga dos Campeões de 2009/10.

Do Arsenal, foi para o Atlético de Madrid, onde também teve problemas para se firmar. Entre idas e vindas, defendeu o Sporting Braga de Portugal e fez parte do elenco dos Colchoneros campeão da Liga Europa 11/12. Abaixo, a apresentação dele no Atleti.

Com o fim de contrato com o Atlético de Madrid, estava disputando a 2a divisão espanhola pelo modesto Hércules de Alicante, que está na zona de rebaixamento para a terceira divisão, no 20o lugar entre 22 equipes. Fez 19 jogos, com 1 gol marcado.

Ao diário Marca, da Espanha, Mérida disse estar “feliz com o negócio e eu vou tentar continuar a desfrutar do futebol neste novo desafio.” Segundo o jornal, o Atlético comprou os direitos do jogador, mas os valores não foram revelados. O contrato é até o final do ano, com opção por prorrogá-lo por mais dois anos.

Artigo: quem perde na briga do Atlético com a imprensa?

Essa é uma informação exclusiva: a Coca-Cola se reuniu há 10 dias com a diretoria do Atlético para cobrar do clube o porquê da pouca exposição da marca na mídia. Na reunião, esteve presente o diretor de comunicações, Mauro Holzmann.

A Coca-Cola cobrou a ausência da exposição dos banners com os patrocinadores e usou até mesmo o Coritiba como exemplo, citando ainda que, com imagens de treino disponíveis para toda a mídia no Alviverde, há retorno do investimento em propaganda até mesmo quando os atletas do Coxa estão consumindo o isotônico da empresa, o que aparece na televisão. Holzmann prometeu algumas contra-partidas – as placas atrás dos gols nos jogos do Atlético no Paranaense, por exemplo. Ainda assim, a direção de marketing da multinacional não ficou contente com as explicações e poderá rever o contrato. A assessoria de imprensa da Coca-Cola confirmou que procurou o clube.

Esse é apenas um dos exemplos das perdas que o Atlético vêm tendo a partir das restrições que tem imposto à mídia em 2013. O modelo de comunicação adotado pelo clube é inédito no Mundo e vai na contramão de tudo o que prega qualquer boa cartilha em gestão e comunicação. Antes de continuar o artigo, faço o aviso: sou formado em jornalismo e também em publicidade, tendo trabalhado por anos na área, antes de migrar para redações. Também sou pós-graduado em gestão esportiva e jornalismo esportivo. O artigo aqui, portanto, não é um achismo; é um apanhado de informações e reflexões sobre as decisões do clube que, pelo volume de torcedores que possui, tem relevância no mercado nacional.

É preciso se entender as razões da decisão da diretoria do Atlético. E também separar algo que já é bem caracterizado no mercado: o que é jornalismo e o que é entretenimento. A opção de não vender os direitos de transmissão para o campeonato estadual é um direito do clube, que argumentou que o valor está abaixo daquilo que entende ser correto. A exibição dos jogos é tratada, até mesmo pela principal emissora do País, como entretenimento. É como quando você quer comprar um carro: ele tem um preço, você tem um valor no bolso; se for compatível, ok. De outra forma, não sai negócio. Sabe-se, porém, que há mais por trás da decisão do que só uma valorização de mercado.

Há anos que a atual diretoria do clube têm problemas com parte da imprensa. E aqui cabe outra ressalva: não há corporativismo na análise – até porque posso garantir que poucas classes são mais desunidas e acirradas que a de jornalista – mas há que se pesar que ora um tem razão na reclamação, ora outro. Há quem diga que tudo que começou em 2004, em uma discussão entre diretores do clube e comentaristas em uma das principais rádios de Curitiba. Há também quem ache que essa mesma rixa vem de mais tempo, 1988, com o cenário político na capital, envolvendo o personagem de mais destaque no clube, Mário Celso Petraglia. Fato é que, por muitas razões, o mercado do jornalismo esportivo é mal visto na cidade, independentemente do time para o qual você torça. E que muitas vezes misturam-se as relações pessoais com as profissionais. Acontece nos microfones e também no site oficial do clube, exemplos não faltam.

O site oficial, aliás, tem uma boa ideia sobre como se comunicar. Só que mal executada. A segmentação de informações do clube não é invenção do Atlético. Há anos já existe a Barça TV, assim como a Real Madrid TV. Existem até mesmo canais de TV que pagam para ter a programação oficial dos clubes. Milan Channel e MUTV (do Manchester United) cobram para canais exibirem seus conteúdos. No Brasil, clubes têm até espaços em canais, como a TV Corinthians no Esporte Interativo – mas a inversão é que o clube compra o espaço para divulgar seu material institucional. Rádios também são opção para o torcedor. O Grêmio tem a sua, que acompanha todos os jogos. Ainda em Porto Alegre, existe uma rádio não-oficial chamada Rádio Grenal, do grupo Guaíba, que fala tão somente da dupla, com jogos transmitidos por torcedores – uma relação que eu considero perigosa e explicarei porque a seguir. Mas, enfim, existem produtos similares no mercado. Nenhum porém que vete o jornalismo em cima do clube.

O jogo é entretenimento; a entrevista, não. Um clube de futebol trabalha não só a emoção do torcedor nos 90 minutos. Tem balanço financeiro e alguns benefícios fiscais. Vende e compra ativos no mercado (os jogadores). Tem departamento médico e de marketing. Movimenta muito dinheiro. Especialmente os grandes clubes, que, por tudo isso são de interesse público. Aí entra a imprensa, que tem como principal trabalho monitorar tudo isso. Um ótimo repórter, no entanto, dribla 90% das restrições do clube. Descobre contratações (olá, redes sociais), negociatas, informações sobre patrocínios e lesões. Falta apenas uma ponta, não menos importante: ouvir o protagonista do espetáculo. É ele quem leva o torcedor pro estádio. Neymar e seus milhares de fãs não me desmentem. E é ele que o povo quer ouvir. No Atlético, não há essa possibilidade.

Cristiano Ronaldo é um craque de bola e de mídia. Ao contrário de Messi, não é low-profile; gosta de badalação e já apareceu até com Paris Hilton nos jornais. Explora bem isso, convertendo em dinheiro, sem deixar de desempenhar em campo. Sem a mídia, Cristiano Ronaldo seria apenas um ótimo jogador, não um ídolo pop. Coisa que Messi é em menor grau, mas não porque o Barcelona o esconde. Messi concede entrevistas coletivas como qualquer outro jogador. A Espanha é o melhor exemplo para esse artigo que fala do relacionamento entre clube e imprensa. Para quem acha que há perseguição ao seu clube, é bom passar uma semana lendo os diários de Madri e Barcelona.

O Mundo Deportivo é o principal jornal de Barcelona; o Marca, o principal de Madri. Há uma clara preferência de cada um pelos clubes das suas cidades, sem pudor. Ambos, no entanto, se pretendem nacionais. E frequentam as entrevistas coletivas dos clubes. As perguntas mais ácidas, mais provocativas, costumam partir destes jornais. Mas somente para os clubes da outra cidade. O bairrismo catalão é a mola propulsora desta disputa, que passou até pela Guerra Civil Espanhola. É histórica a disputa entre Barça e Real, Catalunha e Madri. E nem por isso os clubes barram os jornalistas. Ao contrário: recebem bem, exploram o espaço de mídia valorizando suas marcas e dão media-training aos jogadores que, claro, já estão bem escolados.

No Mundo Deportivo, as notícias sobre o Real Madrid são sempre mais críticas

Jornalismo pressupõe contradição, investigação, réplica e tréplica. E o mínimo de isenção possível ao se lidar com o assunto. Nenhum jornalista é completamente isento: todos temos histórico de criação, bagagem cultural, opções políticas e clubísticas. Mas, ao se empunhar um microfone, isso deve ser deixado de lado o máximo possível. Eu, por exemplo, tenho meu clube do coração. Acho irrelevante declarar – não irá mudar em nada qualquer decisão de ninguém – e procuro isentar-me dos temas da seguinte forma: se eu torço para um determinado time, sei o que o torcedor do rival sente pelo dele. Logo, dou o respeito que gostaria de receber. Com o tempo e o desgaste, o futebol perde a magia e o lado profissional fica em primeiro lugar. E é por isso que jamais uma visão mono e institucional sobre qualquer tema será benéfica. O contraditório é importante para que você desenvolva o seu próprio julgamento.

Assim, por mais que o site oficial de qualquer clube se esforce, jamais será uma fonte 100% confiável; ela é partidarista. Tal qual os programas esportivos com torcedores – já tive oportunidade de comandar duas atrações assim – que perderam-se no tempo por misturar informação com entretenimento. São divertidíssimos quando ficam nas rixas e gozações, mas se perdem quando precisam adotar uma postura informativa. Cada um defende o seu, sempre. E a informação é dada pelo emocional: se fulano jogou mal, não presta, se fez gol, é Pelé. O pronunciamento dado por Mário Celso Petraglia, com interatividade de sócios, seguiu essa linha, bem como as entrevistas feitas pelo site do clube, que pretende servir como fonte única de informação. Falta réplica, contraditório. O que as entrevistas coletivas já vinham minando há algum tempo, o Atlético tratou de exterminar. Com a visão mono, perde-se o lado crítico e a consequência é a letargia: tudo é bom, bonito e tudo serve. Ou foi fatalidade. O popular “Deus quis assim”.

O Santos, com a SantosTV, explora ao máximo as brincadeirinhas com Neymar. Em São Paulo, o Santos não consegue muita audiência. Tem um grande ídolo e aproveita isso, sem barrar qualquer entrevista com qualquer jogador. Atendendo as necessidades, o Peixe expõe sua marca constantemente na mídia nacional. As notícias, a cargo da imprensa. Os bastidores, o Santos oferece e a mídia exibe. Se Neymar ficar noivo e feliz, isso vai ser notícia sem que se cobre dele o desempenho em campo pelo viés crítico.

A confusão entre jornalismo e entretenimento faz com que o clube execute errado uma ideia que seria salutar a todo o mercado – e causa arrepios a alguns colegas: a venda dos direitos de transmissão de rádio. A Fifa já faz isso com a Copa. A lei garante o jornalismo e registro de 3% do espetáculo (vale também pra shows, por exemplo), mas os 90 minutos, só para quem pagar. Foi assim que a TV Bandeirantes começou a transmitir o Campeonato Paulista nos anos 80, dando o pontapé num negócio de alta rentabilidade, para clubes e emissoras. É natural que haja o mesmo no rádio. Porém, nenhum clube conseguirá executar nada sozinho. Se eu compro os direitos de transmissão do Londrina, mas não compro os do Coritiba, como irei transmitir um jogo entre as duas equipes? Antes de executar a ideia, é preciso que todos a abracem. Novamente, o pecado está na execução.

No pronunciamento dado por Petraglia, uma frase chamou a atenção: “Hoje, todos têm smartphones”. Era o presidente do clube defendendo o acesso único a informações pelo site, TV e rádio oficiais. Deixando de lado a liberdade jornalística, a frase morre logo na premissa. É como a rainha francesa Maria Antonieta e a frase atribuída a ela: ” “Se o povo não tem pão, que coma brioches!” A fome do povo vinha da falta de dinheiro, não de opção. O humilde carrinheiro que já anda afastado dos estádios por conta dos ingressos, não tem smartphone. E não terá mais acesso a sua paixão – claro, se for atleticano. Para desgosto rubro-negro, o Coritiba segue a contramão: nos últimos 15 dias, foi exibido 4 vezes em redes nacional e estadual.

A média de audiência do mais consagrado programa de esportes em Curitiba é de 14 pontos no Ibope. Cada ponto equivale a 27 mil televisores ligados que, em média, são assistidos por 6 pessoas. Numa conta rasteira, 150 mil pessoas por dia. O pronunciamento de Petraglia foi, até a redação deste artigo, “curtido” por 125 pessoas, com 78 “tuitadas”, dando a dimensão limitada do acesso do conteúdo na web. O Atlético hoje tem 93 mil seguidores no Facebook e 34 mil no Twitter, enquanto a torcida estimada do clube é de 1,2 milhão de pessoas. Ainda que seja um pronunciamento, as ideias de Petraglia chegaram a pouca gente. Até mesmo as boas, como a pré-temporada na Europa, acabam se perdendo pela falta de explicações. Menos mal para o público que houve um acerto com um canal de TV a cabo nacional para a exibição dos jogos.

Audiência TVCAP: ideias de Petraglia chegam a poucas pessoas

O conflito de interesses entre imprensa e clubes vai sempre existir. Ora ético, ora não, de ambos os lados. É assim na política, na polícia e em todas as áreas do relacionamento humano. Como o futebol é feito de vitórias e alguns torcedores têm a moral distorcida por isso (ganhou tá lindo, perdeu não presta), é uma variável a repercussão dos assuntos. Saber lidar com isso, usando de transparência e inteligencia, é o melhor caminho.

Abrindo o Jogo

Depois de 1 ano e 4 meses, encerrei ontem meu contrato com o jornal Metro Curitiba. Só tenho a agradecer à equipe, que me recebeu muito bem nesse período, em especial à Martha Feldens, diretora de jornalismo e autora da idéia de que eu fosse colunista lá.

A última coluna, que iria estar nos jornais hoje, estava pronta. Mas não houve acerto para continuidade e, por isso, publico-a aqui no blog, que seguirá ativo.

Via de mão-dupla
Petraglia é “ame-o ou odeie-o” – conflito que erroneamente chegou até a imprensa, que deve avaliar temas e não a pessoa. Dito isto, já se antevê mais uma polêmica. No pronunciamento que deu recentemente (entrevista pressupõe réplica e contradição) exibido pelo site do Atlético, disse pretender levar jogos contra grandes de SP, RS e RJ para Londrina, Cascavel e até Brasília. Petraglia, que sempre cobra reciprocidade dos seus torcedores, caso faça isso, atingirá em cheio os cerca de 14 mil sócios – número impressionante de adimplentes após um rebaixamento e dois anos sem estádio. Sob a justificativa de que o clube precisa de dinheiro, pode abrir mão do fator campo (decisivo em 2012) e desprezar o sócio, quem mais apoiou o pior momento da história recente atleticana. O balanço mostra um caixa em dia, saneado. Não há porque o Furacão vender renda para sanear nada. Mais importante: os sócios pagam R$ 70 por mês para ver os jogos. Destes, apenas R$ 10 vão para o borderô – o resto é caixa do clube. Faça as contas. Se não há acordo na cidade – embora haja dinheiro para alugar a Vila, por exemplo – pode se buscar Joinville, como fez o Coritiba em 2010. Resta saber se o pensamento é pró-torcedor ou a articulação já está fechada, com o recado dado nas entrelinhas para ser digerido pelos torcedores durante o Brasileirão. Dúvida: onde anda a associação de sócios do Atlético, criada por Petraglia na gestão Marcos Malucelli?

A Copa, finalmente, em Curitiba
A nova prefeitura promete finalmente explorar a vinda da Copa na capital. Logo depois do Carnaval, a cidade deve iniciar um plano pró-Copa, evidenciando os benefícios que o evento trará a cidade, com ações em comunicação. Para esse ano, estão previstas ações de capacitação de profissionais pensando no turismo na cidade. Haverá visitações a consulados no exterior, de olho na Olimpíada Rio 16. Curitiba quer buscar delegações para hospedagem e treinamento na cidade. Sabendo da rixa que há quanto ao Mundial por conta da rivalidade Atletiba, há também um plano de aproximar mais o Coxa da Copa, incluindo ações na Turquia, explorando a imagem de Alex por lá.

Alex, o midiático
Começam cobranças pelo desempenho nos jogos em que ele atuou – e o próprio reconheceu que não está bem. Já há quem diga que pode ser excesso de exposição na mídia. Exagero. O meia está fazendo o papel que lhe cabe fora de campo e, dentro, é muito cedo para cobrar. Vale o recado: o maior problema para Alex no Coxa antes da volta era o tamanho da expectativa sobre ele. Alex tem lenha pra queimar (ou não seria procurado por tantos) mas é preciso deixar o fogo pegar primeiro.

Lincoln x Botinelli
A entrada que acabou em fratura no treino do Coxa deve ser julgada como acidente de trabalho e imprudência, num primeiro momento. Alguns se apressam em julgar o caráter de Lincoln. Isso é leviano. Se houve maldade, saberemos pela reação dos colegas nos próximos dias, que jamais tolerarão esse tipo de atitude.

Paratiba #94: um clássico como há muito não se vê

Empatados na liderança do Estadual em quase todos os critérios (o Coxa está na frente por ter tomado menos cartões amarelos), Paraná e Coritiba duelam pela 94a vez na história nesse domingo, na Vila Capanema, com um equilíbrio de ambições como há muito não se via.

Sem vencer o rival desde 21/02/2010, quando fez 1-0 em Paranaguá, o Paraná aparece como postulante ao título do primeiro turno – e eventual finalista – o que não acontece desde que foi campeão pela última vez, em 2006. A derrota em Paranaguá também foi a última do Coritiba em clássicos em Estaduais. Desde então, o clube se sagrou tricampeão paranaense, com um título invicto em 2011.

Somando-se a tudo isso, em campo estarão dois dos maiores ídolos de cada clube: Alex, pelo Coxa, e Lúcio Flávio pelo Paraná. O leve favoritismo que o Coritiba poderia ter fica aplacado pelo bom início tricolor e o mando de campo, que equilibra as situações.

Para quem é supersticioso, os vídeos abaixo apontam números desfavoráveis ao Coxa. Com Alex em campo, o Coritiba foi goleado no já distante ano de 1997, última vez em que o ídolo coxa-branca encarou o Tricolor. Alex marcou duas vezes, mas não foi o suficiente:

Lúcio Flávio também já enfrentou o Coritiba em outra época. A partida mais memorável foi em 1999, quando o Paraná, então jogando na Vila Olímpica, aplicou uma goleada histórica, com um time basicamente formado por jovens. Entre eles, o próprio Lúcio Flávio:

As goleadas acima, no entanto, não devem ser parâmetro para o jogo deste domingo, que promete ser equilibrado. Na história, são 35 vitórias do Coritiba, 31 do Paraná e 27 empates.

Com ídolos em campo e equilíbrio na tabela, o Paratiba #94 promete resgatar a rivalidade do clássico, que já foi acirrada nos anos 90, quando os times decidiram por dois anos (1995/96) seguidos o título estadual.