Sejamos honestos: olhando a história da Argentina, é impossível negar o que cantam milhares de hermanos nas ruas do Rio de Janeiro nesse dia de estreia da seleção vizinha na Copa 2014. Maradona é mesmo “más grande” que Pelé. Ao menos pra eles. E ao menos em espanhol.
Alguém, em algum momento, resolveu traduzir que “más grande” é melhor. Não, amigo leitor, não é. É maior. Para os argentinos, Maradona foi, é, e sempre será, maior que Pelé. Talvez até para nós brasileiros, se formos pensar bem no que isso quer dizer. Mas nunca foi dito pelos argentinos que Maradona é MELHOR que Pelé. Isso, os números não deixam.
Poderíamos até comparar ambos em genialidade nos lances. Seria um páreo bacana, mas o Rei venceria. Títulos, gols, arrecadação em mídia, dá Pelé de longe. É possível até comparar Messi com Maradona e Pelé nesse aspecto, afinal. Todos atrás. Não, o ponto não é e nunca foi esse.
Maradona é maior que Pelé pelo que representa aos argentinos.
Era 2007 e eu andava por Buenos Aires. O primeiro “susto” de quem não conhece o povo argentino é ver que eles respeitam e gostam do futebol brasileiro. O melhor termômetro de qualquer cidade é um taxista. Eles correm a cidade, convivendo com o mais sortido tipo de pessoas. E um deles, torcedor do Arsenal de Sarandí, me convenceu sem erros que Maradona era maior que Pelé. Nunca melhor.
Disse-me na ocasião o taxista (cujo nome não me lembro, mas não era Diego) que Pelé era incomparável. Mas que Maradona representava la gente. O povo, no caso. Que saiu das favelas para vingar a Argentina em 1986. E aí é que entra o que vale pra eles: La Mano de Dios.
Alguns chamarão de heresia, mas para eles, Deus agiu no corpo de Maradona naquela vitória por 2-1 sobre a Inglaterra. Fazia apenas 4 anos desde que os ingleses massacraram as tropas argentinas na Batalha das Malvinas – Falklands, para os britanicos. A disputa pelo território ainda magoa os sul-americanos, mesmo que num recente plebiscito, os habitantes da ilha prefiram a Inglaterra. Mas, pouco importa. Era o orgulho argentino em jogo. Famílias que perderam filhos, um país subjulgado militarmente em uma disputa que eles consideravam correta, tentando mostrar ao Mundo que eram melhores que seus rivais.
E foram.
Maradona foi o símbolo daquela conquista. Primeiro, com o gol espetacular – chamado de gol do século – driblando meio time inglês desde o meio campo. Depois, com a incorreta mão, atropelando moral e ética, em cima de quem havia atropelado com bala os desejos argentinos. Aquela vitória, coroada depois com o título, fez de Maradona maior que Pelé. Maior até que Deus, ainda que por 90 minutos.
É essa a diferença entre “más grande” e “mejor”. Franceses talvez comparassem Zidane ou Platini a Pelé; espanhóis no futuro lembrarão de Iniesta. Nenhum deles, nem Beckenbauer, Rivaldo, Ghiggia, Paolo Rossi, Romário, Matthaus ou qualquer outro, mesmo Pelé e Garrincha, significaram mais para um povo campeão o que Maradona para aquela Argentina. Talvez Jesse Owens.
Por isso Maradona é “más grande” que Pelé, como cantarão alto os alvicelestes no palco número 1 do futebol neste domingo. E Pelé, mesmo sendo muito para o Brasil, não é igual, admitamos. Embora seja muito melhor, com números incontestáveis, conquistas históricas, feitos memoráveis. É o Rei, o número 1. Diferente, afinal.
Com 10 de seus 23 convocados com 23 anos ou menos, os “Three Lions” estreiam na Copa do Mundo Brasil 2014 contra uma Itália experiente, no grupo mais difícil do Mundial (completado com Uruguai e Costa Rica) e sem muitas expectativas em relação ao título, ao menos neste ano. Talentos como os meias Sterling e Wilshere e o atacante Welbeck chegarão à Arena Amazônia buscando uma identidade, na Copa que deve marcar a despedida de outra geração de quem se esperava muito, com Rooney, Lampard e Gerrard.
Menos pretensiosa que em outras Copas, a Inglaterra abertamente fala em adquirir experiência e ir o mais longe que puder. Com uma das três ligas de clubes mais badaladas do Planeta (junto com Alemanha e Espanha), os ingleses não conseguem, desde 1966, traduzir esse poder em título mundial. Por isso a cautela foi adotada no Brasil, reconhecidamente por eles o grande favorito. Já no Catar 2022, a ideia é outra.
Por isso, a principal revista esportiva dos ingleses, a Four Four Two, traçou um plano com 22 metas para 2022. Entre elas, buscar uma nova liderança para a equipe, não tentar copiar o estilo espanhol de jogo, aprimorar as bolas paradas (e olha que de chuveirinho ninguém entende mais que eles…), calar os críticos (receita de Felipão), sonhar realmente com a taça e, finalmente, não pensar hoje apenas em 2022.
Para 2014, são duas as grandes discussões inglesas. Primeiro, a humidade de Manaus para a estreia. Todos consideram um desafio. “Mas podemos lidar com isso”, afirmou Welbeck, cujo sonho é disputar a final no Maracanã, contra o Brasil, e com direito a cobrar pênalti: “Espero que possamos vencer no tempo normal (risos), mas se tiver pênalti, eu bato sim.”
Outro tema é Luis Suarez. O atacante uruguaio do Liverpool, uma das maiores torcidas inglesas, quase levou o time da terra dos Beatles ao título da temporada, perdido para o Manchester City nos detalhes. Todos conhecem o poder de Luisito – que será poupado na estreia Charrúa contra a Costa Rica para estar melhor contra Inglaterra e Itália – e isso faz com que o alerta esteja ligado. Principalmente para Sterling, o garoto de apenas 19 anos que costuma servir Suarez nos Reds. “Não me preocupa [enfrentá-lo]. Me excita”, afirmou a Four Four Two. Gerrard, o líder da atual seleção inglesa, vê em Sterling o principal jogador do grupo. Um Neymar à base de fish and chips? Veremos em até 8 anos.
Ingleses já rejeitaram a Copa
A volta ao Brasil, 64 anos mais tarde, marca o reencontro do país que inventou o futebol com o local em que, pela primeira vez, eles entenderam que a Fifa realmente tinha força e dominava o cenário do esporte no Planeta. Até 1950 a Inglaterra se recusou a participar das Copas, entendendo politicamente que, como inventores do futebol, deveriam serem eles os organizadores do principal evento no Mundo. A barreira foi rompida no Brasil, após o final da II Guerra Mundial e com o fim do recesso que impediu a realização de dois mundiais, em 1942 e 1946.
O painel acima está exibido no National Football Museum, o museu do futebol britânico, em Manchester. “A Inglaterra se junta a festa”, conta o cartaz, que relembra o Maracanazzo e aquela que é considerada a mãe de todas as zebras: a vitória dos EUA sobre os ingleses por 1-0, no Estádio Independência em Belo Horizonte, no choque entre colônia e colonizador, com os inventores do futebol caindo para um time de um país em que o esporte era incipiente e que só passou a se desenvolver após 1994.
Quanto você pagaria para ver a final da Copa do Mundo no estádio do Maracanã, no próximo dia 13 de julho? Um site cobra até cerca de R$ 131 mil para que o torcedor tenha o privilégio de ver o jogo de futebol mais importante do planeta.
Sediado na Espanha, o Iguana Tickets diz apenas intermediar a venda dos ingressos, que seriam oferecidos por outros torcedores.”Somos uma plataforma de compra e venda de ingressos entre particulares. Ou seja, qualquer pessoa que tenha um ingresso de um evento ao qual não vai poder participar, poderá anunciá-lo no nosso site gratuitamente”, afirmou o sistema de atendimento do site.
A logística é monitorada pelo site e inclui o pagamento via boleto bancário (ao contrário do que a própria Fifa disponibilizava) e a entrega dos tickets em até três dias. A empresa, porém, alerta que os ingressos comprados pelo site chegarão às mãos do comprador com o nome da pessoa que primeiro adquiriu o ingresso no site da Fifa. Desta forma, o comprador pode ter uma enorme dor de cabeça.
A Fifa criou alguns mecanismos para tentar coibir a revenda dos ingressos. É preciso antecedência de três dias, via site, para transferir as entradas. É preciso também que o proprietário justifique a transferência da posse (é permitido doar o ingresso para um parente, por exemplo). A própria Fifa se dispõe a intermediar a revenda, aceitando uma devolução condicionada à nova venda por valor original, sem garantir a devolução do dinheiro no caso de o ingresso não encontrar novo interessado.
Chama a atenção também a diferença dos preços. Se o ingresso mais nobre da final gira em torno dos R$ 130 mil, o mais barato, categoria 4, está pra lá de inflacionado.
Os ingressos na categoria 4 são os que foram destinados pelo Governo às pessoas de baixa renda (apelidados de “ingressos-bolsa família”). O preço original, 330 reais, foi jogado para R$ 11 mil. A empresa avisa que esse ingresso só está a venda para pessoas residentes no Brasil.
Shakira, que alegria te ver de volta! Isso porque nos meus sonhos já te vi várias vezes, mas dessa vez é pra valer. Tudo bem que você veio com o seu marido, mas eu também sou casado. E como não estou muito preocupado com o bem estar dele, vou te levar pra sair.
Ok, entre nós sabemos que você vai torcer mesmo pra Colômbia – que Espanha que nada! Mas é bom ficar de olhos abertos. Entre uma volta na Avenida Batel e outra na Cruz Machado, esse um que você escolheu pra viver pode se distrair. Nossas meninas são lindas, confesso. A Cruz Machado é a cruz que todo curitibano de bem carrega – como já dizia Paulo Leminski, esse atleticano incorrigível – e onde a perdição se torna salvação na calada da noite. Shakira, deixa disso. Você merece mais.
Merece o pedal no Passeio Publico, de mãos dadas. Deixe esse tal de futebol pra lá. Vamos até a Feira do Largo da Ordem, ouvir o Plá cantar seus versos desafinados enquanto comemos um pastel ou dois. Ou três submarinos, com o canequinho legitimamente roubado do Bar do Alemão. Podemos cantar umas no Cavalo Babão ou até no Hangar – e quem fecharia o palco para olhos assim, como os seus?
Vamos experimentar uma bela carne do onça e mataremos nossa ressaca do Tubão no Parque Barigui. Correremos o que der, entre uma capivara e outra. Deixa Piqué treinar com Xavi e Iniesta lá no frio do Caju, enquanto trocamos de estações quatro vezes por dia. Não prometo não tentar nada, afinal o Jacaré é manso, mas é um jacaré.
Podemos ver o jogo na Fun Fest na Pedreira – e vamos de ônibus, que já foi melhor, mas ainda é bom. Metro? Só a da Cruz Machado, onde começamos o passeio. Esquece isso de Shopping, de SoHo. Curitiba tem de bom mesmo é a vina, o costelão, o bolinho de carne no O’ Torto do Magrão, o pinhão, a mistura interior-capital, cabeça do mato em corpo de metrópole. Vamos nos divertir, naquele arrasta-pé do Brasileirinho, e esse negócio de Copa que dure 30 dias. E dá pra achar ruim?
Jessica Tadmor é a responsável pela coordenação do projeto do álbum da Copa da Editora Panini no Reino Unido e, em entrevista à revista britânica Four Four Two, explicou como a editora define os jogadores que entram na coleção – motivo de muita discussão entre os torcedores e colecionadores. “Bem, temos que advinhar antes deles serem convocados”, conta, “mas nós cruzamos as informações das confederações com os palpites de jornalistas em todo o Mundo.” Com bom humor, tirou de letra as críticas pelos erros. “Aparentemente, David Beckham ficou muito honrado em estar no álbum de 2010, apesar de não estar nos planos do [então técnico inglês] Fábio Capello”.
A imagem acima, do canal TyC Sports da Argentina, mostra uma das três estátuas inauguradas nesta quinta, 05/06, em Buenos Aires na Argentina. Messi, o principal nome da atual seleção vizinha, mesmo sem ainda ter confirmado um grande feito com a camisa alviceleste e tampouco ter marcado época em algum clube local – começou no Newell’s, mas saiu cedo para brilhar no Barcelona – já garantiu sua imortalidade nas ruas do bairro Recoleta, como parte da empolgação dos hermanos para a Copa.
As obras são do artista plástico argentino Fernando Pugliese e ganharam apoio do governo local. Além de Messi, foram imortalizados Gabriel Batistuta, atacante que brilhou nos anos 80 e 90, e, claro, Diego Maradona.
Os irlandeses não são conhecidos mundialmente por sua excelência no futebol. São apenas três participações em Mundiais, com o incrível feito de ter chegado às quartas-de-final da Copa em 1990 sem ter vencido um jogo sequer (foram 4 empates com Inglaterra, Egito, Holanda e Romênia até a derrota para dona da casa Itália por 0-1). Mesmo assim, eles adoram futebol. E ainda não perdoaram o árbitro sueco Martin Hansson pelo erro que os eliminou da Copa de 2010, nas eliminatórias européias contra a França.
Festivos, os irlandeses armam seus bares para ver o Mundial e boa parte adotará o Brasil como time para torcer. Apesar das ligações com a Inglaterra, não há uma simpatia – nem uma confiança – geral nos “Three Lions” (verdadeiro apelido do time inglês, e não ‘english team’), ao contrário do que acontece com os clubes ingleses. E mesmo tendo o futebol gaélico e o rugby como esportes mais populares, os irlandeses não perdem a chance de uma festa. Logo…
A admiração pelo futebol brasileiro também se deve à Sócrates. O Doutor atuou apenas uma partida pelo Garfoth Town, já nos anos 2000, depois de aposentado, mas o suficiente para deixar todos na região – Dublin está há apenas 1h de viagem de Garforth – com histórias para contar. É comum ver irlandeses com camisas com o rosto de Sócrates.
Um pouquinho de Brasil
As ligações com o Brasil também se dão pelo número de brasileiros vivendo na cidade. Isto porque a Irlanda é um dos raros países que permitem que se estude inglês e se possa trabalhar enquanto acontece o curso. Isso serve de porta de entrada de muita gente na Europa. Pessoas que tentam aprender a lingua mais falada no planeta e, principalmente, ganhar a vida em Euro. No entanto, em virtude de fraudes no sistema, vários brasileiros enfretam situação difícil na cidade atualmente.
As dificuldades e a Copa são um belo motivo para voltar. Quem não o fizer, no entanto, não ficará sem Copa. Apesar do fuso-horário (são 5 horas a mais no momento), vários bares devem abrigar os torcedores brasileiros na expectativa pelo Hexa. Um deles é o D-One, cujo dono é brasileiro. O bar já é ponto de encontro brazuca em Dublin e serve pratos como coxinha, pastel, feijoada e, claro, caipirinha. Além disso, exibe os jogos do Brasileirão.
Amigos como os rubro-negros Pedro Oliveira e Alison Karas se reunem lá para ver seus times. O primeiro é Sport, o segundo, Atlético Paranaense. Na expectativa de ver os jogos da rodada – tinha Atletiba e Sport x Corinthians – foram ao D-One. Na tela, Santos x Flamengo. Ao menos o sinal 4G realmente funciona na Europa. Alison apelou para o PFC Online, recurso oferecido pela Globosat, e viu o clássico paranaense na tela do… celular.
Pedro, por outro lado, insistiu com o garçom para que ao menos uma das telas do bar saísse do duelo entre Peixe e Fla para ver seu Sport contra o Timão. Demorou, mas conseguiu – há tempo de ver alguns corintianos se aproximarem para acompanhar o jogo, tudo na maior paz, como sempre deveria ser. Para azar de Pedro, o Sport esteve num péssimo dia e acabou encaixotado pelo Corinthians, 1-4.
Dublin é conhecida por ser a cidade do U2, de vários castelos e da ótima cerveja Guinness – que também edita o Livro dos Recordes. Visitar a fábrica da cerveja tipo Stout é parada obrigatória.
São sete (!) andares com um museu com a história da cervejaria inaugurada em 1759, o processo e a história de fabricação, a importância da marca para a Irlanda, uma experiência de sabores e cheiros, o aprendizado de como servir a cerveja (e o porquê daquela bolinha dentro das latas) e a melhor visão de Dublin, no Gravity Bar, de onde você pode ver, entre outras coisas, o Aviva Stadium, casa da Seleção Irlandesa. O passeio custa entre 6 e 17 Euros, dependendo da faixa de idade. É a cerveja mais consumida na cidade, num dos exemplos de orgulho local.
Quase gaúchos
Dublin se orgulha da excelência da Guinness, valoriza o comercio local – é comum ver faixas em restaurantes e mercados dizendo que “aqui se vende carne irlandesa” – mas, no futebol, a preferência é pelos clubes ingleses, especialmente Liverpool e Manchester United, e pelo Celtic, da Escócia. Os escoceses contam com enorme torcida na cidade, tudo em virtude do catolicismo, religião de 11 entre 10 irlandeses. Reds e Devils ganham adeptos pela proximidade e pelos desempenhos favoráveis. Azar dos times de Dublin.
Bohemians, Athletic St. Patricks e Shamrock Rovers são os clubes de Dublin. Nenhum usa com frequência os dois principais estádios da cidade, o Aviva e o Croke Park – este muito usado pelo rugby e pelo futebol gaélico. A maior rivalidade é entre os Bohs e os Rovers. Ambos têm seus estádios, acanhados, para menos de 10 mil pessoas. O do Rovers é na verdade um estádio público, arrendado pela equipe, e muito mais moderno e confortável.
Os Rovers também são os mais bem sucedidos na cidade. Seu último orgulho foi a disputa da Liga Europa 2011/12, edição transmitida ao vivo aqui no Terra. O orgulho não se deu pelos resultados e sim pela turnê internacional contra Rubin Kazan da Russia, PAOK da Grécia e Tottenham da Inglaterra. Em campo, seis derrotas na fase de grupos, com 4 gols pró e 19 contra. O estádio ainda tem um enorme painel com o mapa da Europa e o logo da Liga, assim como um pequeno museu, cujo destaque, além das taças locais, é a placa abaixo, na referência ao duelo inaugural contra o Real Madrid, derrota por 0-1.
Johan Cruyff não anda bem humorado em relação ao futebol. Depois de “declarar guerra” a Neymar, o eterno craque da Holanda não acredita numa grande Copa do Mundo, pelo menos no aspecto técnico.
“Primeiro temos que ver quantos jogadores vão chegar bem ao torneio. Não muitos, eu acredito. As ligas nacionais estão exigindo tanto nos últimos tempos que eles estão minando seu nível físico”, disse em entrevista à revista da KLM, companhia aérea holandesa, que encontrou o ex-jogador em Barcelona, cidade onde ele reside. Cruyff não está tão distante da realidade: Falcão Garcia está fora por lesão, Cristiano Ronaldo e Ribery estão ameaçados e Messi já não vive grande fase, entre outros lesionados, como o holandês Strootman e o italiano Montolivo. A exceção é o Brasil.
A bronca tem também um certo bairrismo: “O orgulho de muitos sul-americanos está em jogo. E nenhum europeu nunca conseguiu vencer uma Copa na América do Sul”, aponta. A Holanda dele, em 1978 – já sem Cruyff, perdeu a segunda de suas três finais em 1978, na Argentina.
A Holanda é, aliás, uma das poucas seleções de ponta no Mundo a não ter um título de Copa. São três derrotas em três finais (1974 para a Alemanha, 78 para a Argentina e a última, 2010, para a Espanha). Campeã européia em 1988, a Holanda persegue o título com uma seleção forte, que fez brilhante campanha nas eliminatórias. As derrotas, porém, servem até de piada para os locais. Na loja “Copa”, especializada em futebol na cidade de Amsterdã, a camisa abaixo é sucesso de vendas.
Muito já se falou e ainda se falará sobre a derrota do Brasil em casa na final da Copa de 1950 para o Uruguai. Depois de 64 anos, a Copa volta ao país que mais vezes ganhou o Mundial e uma nova derrota traria a tona todos os traumas da primeira vez aqui. No entanto, o que poucos sabem ou comentam é que o ‘Fantasma de 1950’ também assombra o Uruguai.
É a tese de Atilio Garrido, jornalista uruguaio autor do livro “Maracanã, a História Secreta”. O livro conta os bastidores daquela conquista histórica da Celeste, relembra que o mesmo Uruguai já havia vencido o Brasil meses antes da Copa e principalmente: atribui os últimos 64 anos de fracassos dos vizinhos, não só no esporte, aquela vitória épica.
Segundo o livro, o Uruguai era um país em plena evolução social, artística e política naqueles tempos. Expoente nas américas, os vizinhos já tinham representantes fixos na ONU e no tribunal internacional de Haya, eram reconhecidos internacionalmente pelo teatro, a poesia e a música (sem contar a eterna disputa com a Argentina para saber quem é o país de Carlos Gardel) e enquanto a América do Sul engatinhava politicamente, o Uruguai vivia uma democracia plena.
Apenas 72 dias antes da histórica final no Maracanã, o Uruguai tinha feito 4-3 na mesma Seleção Brasileira, no dia 5 de maio de 1950, em São Paulo. Na ocasião, olhados os anos anteriores, eram os uruguaios os reis do futebol. Bicampeões olímpicos e campeões mundias em 1930, a Celeste também tinha 8 títulos da Copa América contra apenas três do Brasil (os argentinos tinham nove; hoje, Uruguai 15, Argentina 14, Brasil 8). Embora o Brasil fosse o campeão sul-americano de 1949, o Uruguai tinha mais lastro.
“Tínhamos mais time. Era um grande time de futebol”, conta Garrido. “Ganhar era normal, o problema foi como tudo aconteceu”. Ao enfrentar o país-sede na final, o ótimo Uruguai se viu na pele de vilão. O Brasil também tinha um grande time e havia feito uma campanha fabulosa. Diferente dos dias atuais, não havia final. O Brasil enfrentou o Uruguai na última rodada do quadrangular decisivo após atropelar a Suécia por 7-1 e a Espanha por 6-1, no jogo embalado pela marcinha “Touradas em Madri”. Os uruguaios haviam penado para bater os suecos (3-2) e não passaram de um empate em 2-2 com a Espanha. Na última rodada, o Brasil jogava pelo empate e saiu na frente, 1-0.
“O Maracanazzo foi um ponto central na vida e na cultura uruguaia. Aquela virada, atribuida ao espírito Criollo, acabou por mudar toda uma geração”, atesta a obra. O tal espírito é o que por aqui chamamos de raça. A abnegação uruguaia, a superação ao calar 200 mil vozes e virar o jogo no Rio de Janeiro, trouxe ao país um recado de que o esforço supera o estudo. “Desgraçadamente, em todos os cenários intelectuais, quis se mostrar que esse seria um país sem fé, de burocratas obsoletos. Depois do Maracanã ficou mais bonito sermos indolentes, mostrar fé, ser Criollo ao invés de privilegiar a dedicação e a preparação técnica”, aponta a obra.
“Ainda estamos vivendo aquele Maracanã. Aqui, sinto que nos instalamos no ontem e de lá não queremos sair” é outra frase forte que sustenta a tese de Garrido. No entanto, o livro não é só tristeza e lamúria, como se a conquista não fosse querida. A obra passeia pela montagem do time, de um rompimento político com a AUF (Associação Uruguaia de Futebol) e dos relatos de viagem e diários de todos os atletas, com clubes de origem.
Curiosamente, no Brasil a tese é oposta: foi a partir da derrota de 1950 e do sentimento de vira-lata criado e combatido que a Seleção se tornou a maior de todas, vencendo mais que qualquer uma.
Passada a eliminação do Cruzeiro na Libertadores, a última entre as seis que os brasileiros viveram nessa edição, um dos principais articulistas de um movimento de renovação no futebol brasileiro aceitou o convite do blog para falar do futuro do esporte número um no país. O zagueiro Paulo André, ex-jogador de Guarani, Atlético Paranaense e Corinthians, mudou de endereço, mas não de pensamento. Atualmente no Shanghai Shenhua da China, Paulo André defende que o Bom Senso FC, movimento do qual faz parte, não sumiu e sim mudou de estratégia. Não vê legado da Copa além dos estádios e sentencia: o futebol brasileiro quebrou. Leia a entrevista:
Napoleão de Almeida: A Copa está chegando, esse é um ano eleitoral. Difícil desassociar. Mas, noves fora as jogadas políticas, a Copa trouxe ou trará, para os profissionais do futebol, alguma melhoria efetiva? Como você vê a realização da Copa aqui na posição de quem faz o espetáculo?
Paulo André: Acredito que os novos estádios, apesar de tudo, serão o único legado estrutural que a Copa deixará. Isso fará com que a transmissão dos jogos e a experiência do torcedor que frequenta estádios no Brasil melhore bastante. Mas no fundo, e é triste assumir isso, acho que o Brasil apenas mostrou a sua cara, a sua falta de organização e de planejamento históricos e sua mania de tentar resolver tudo com o jeitinho. Decisões políticas e não técnicas fizeram com que perdêssemos a chance de acelerar o desenvolvimento de políticas públicas que impactassem diretamente no dia dia dos brasileiros que viverão aí (porque estou na China) após o dia 12 de julho. As prioridades da população ficaram evidentes nas manifestações populares de junho do ano passado. A nós, resta devemos cobrando transparencia, eficiencia e punição caso seja constatada corrupção.
NA: Você faz parte do Bom Senso FC, mas o movimento parece ter perdido força com a sua saída do Brasil. Acaba que ficou a imagem de que você era a cabeça do movimento. É uma premissa verdadeira? Onde estão os demais, uma vez que os pedidos e sugestões a CBF parecem não ter tido efeito?
PA: O Bom Senso continua forte e trabalhando, a ponto de ter influenciado os rumos e as alterações promovidas pelo Dep. Otávio Leite no texto do Proforte. Sete das nossas 8 demandas de Jogo Limpo Financeiro estão comtempladas na proposta. Ou seja, encontramos outros caminhos para fugir da inoperancia e do desinteresse da CBF que, irritantemente, mantem sua política de tentar distrair e enfraquecer as demandas do movimento por meio do desrespeito aos principais atores do futebol nacional. É triste ver como tratam esse patrimônio do povo brasileiro que vai de mal a pior a cada ano que passa.
NA: Certa vez, em entrevista aqui ao Terra, o presidente do Atlético Paranaense, seu ex-clube, ironizou o movimento Bom Senso FC dizendo o seguinte: “Interessante eles (jogadores) se articularem agora, pois sempre quando precisa-se de uma renovação de contrato, nenhum conversa comigo. Mandam seus representantes”. É notória a presença dos empresários no futebol. Há quem diga ainda que só mudou o “dono” do jogador: do clube para o empresário. Como você vê essa crítica e por que o jogador raramente se faz representar?
PA: Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Admiro o Presidente Mario Celso Petraglia mas acredito que ele tenha sido infeliz nessa declaração. As negociações entre atletas e clubes não são simples e um representante, muitas vezes, se faz necessário para evitar desgastes importantes nesse tipo de discussão. É muito simples regularizar e fiscalizar as pessoas que querem ser empresários ou donos de “pedaços” dos atletas. Basta vontade política da CBF, dos clubes e de uma legislação mais específica. Mas aonde é que os dirigentes vão ganhar dinheiro se fecharmos com fiscalização e transparência essa torneira de compra e venda de jogadores? Há interesses obscuros de todos os lados nessa história. Não é tão simples assim. E outra coisa: Aos empresários só foi possível entrar nesse jogo porque os clubes, mal geridos, gastaram mais do que podiam e começaram a vender parte de seus bens. Do jeito que está não tem mais volta, virou uma zona.
NA: Teremos mais jogadores da MLS na Copa do que jogadores atuando no Brasileirão. Da mesma forma, o público médio nos EUA é maior do que o nosso aqui. Quando deixamos de ser o País do Futebol, perdendo até para um país em que o ‘soccer’ é o 5º ou 6º esporte na preferência popular?
PA: É o que temos falado nos últimos tempos. Na primeira reunião do Bom Senso com a CBF, o Juninho Pernambucano e o Seedorf foram claros nesses pontos e pediram que o Marin e o Marco Polo tomassem providencias. Os jogadores já perceberam, os treinadores já sabem, os outros países continuam vendendo um produto melhor que o nosso. Mas o pior cego é aquele que não quer ver. O Sr. Marco Polo del Nero e o Sr. Marin estão apostando todas as suas fichas no sucesso da seleção brasileira nesta Copa do Mundo. Gostaria que eles viessem a público e explicassem qual é o projeto para o nosso futebol. Como eles fortalecerão os clubes? Como eles internacionalizarão as marcas? Mas é impossível tocarem nesses assuntos porque desconhecem a solução. O talento brota da terra e os “poderosos” o exploram a torto e a direito. E enquanto isso acontece, nenhum clube brasileiro se classificou para as semi finais da Copa Libertadores. Isso é possível? Mesmo tendo uma receita 2 ou 3 vezes maior do que qualquer clube sul americano, ficamos de fora. O que mais precisa acontecer?
NA: O ‘Fantástico’ deste último domingo revelou um esquema de cambistas para ingressos da Copa. Antes, o ‘Olé’ da Argentina já havia denunciado um esquema que envolve organizadas. É muito dinheiro rolando. O torcedor está longe dos estádios, os jogadores são pouco ouvidos, os cartolas de clubes argumentam que o voto não é qualificado na escolha de uma presidência de confederação. Quem, afinal, é o dono do futebol brasileiro?
PA: O grande vilão é o estatuto da CBF que potencializa a força das “inuteis” federações. A maioria dos presidentes das federações se eterniza nos cargos e não fará nada para mudar essa realidade. É só ver os 5 vices da CBF que acabaram de se eleger. A quanto tempo cada um deles está no cargo? Para eles o importante é permanecer lá. Ninguém quer saber da capacitação dos treinadores e dos gestores, de medidas para trazer a paz aos estádios, de um novo calendário para o futebol nacional, do jogo limpo financeiro, da formação de atletas, da melhoria do nível técnico dos campeonatos, etc.. E assim vamos vivendo nessa ditadura mascarada. E a Globo, habilidosamente, se aproveita da fraqueza e do medo dos presidentes de clubes para controlar financeiramente o futebol.
NA: Ainda sobre torcidas organizadas: na final da Copa Itália, um incidente com os Ultras quase impediu a realização do jogo entre Napoli e Fiorentina. Jogadores tiveram de pedir permissão para começar a partida. Pelo visto, não é um problema exclusivo do Brasil. Qual o panorama que você encontrou na China? Quais as diferenças de organização para cá, por exemplo? E mais: vocês do Bom Senso FC têm/tiveram contato com atletas em outros países com problemas parecidos, como a Itália, para troca de experiências?
PA: Acho que a China é um caso a parte devido ao aspecto político do país. Se formos nos espelhar em alguém, devemos copiar o modelo inglês que quase erradicou a violência nos estádios de futebol no país. Fizeram isso há mais de 20 anos, obtiveram sucesso. O que estamos esperando? Com as novas arenas e sem uma nova regulamentação, verdadeiras catástrofes poderão acontecer.
NA: Estádios sem alambrados na Copa. Vocês, jogadores, se sentirão seguros para jogar nesse formato em partidas de clubes? Especialmente após o episódio do CT do Corinthians?
PA: Acho que falei sobre isso em respostas anteriores. Se não surgir um plano emergencial para esse caso, a impunidade, costumeira no país, ocasionará uma grande catastrofe. Clubes, Federações, torcidas, poder público e governo devem enfrentar seus demonios e arrumar a casa. Mas em ano de eleição isso será impossível. Ninguém mexerá nesse vespeiro.
NA: Por falar em seu ex-clube, quando da queda de produção do Corinthians em 2013, na sua visão, isso aconteceu por que o time atingiu o topo? Existe ciclo e validade no futebol profissional? Ou o problema foi outro?
PA: Acho que há uma complexidade em um grupo de futebol profissional que pouca gente consegue explicar. É como um organismo vivo que sobrevive em constante adaptação. Quando se acomoda, corre riscos de não evoluir. Se todos os envolvidos ou pelo menos os que lideram não se prepararem para os perigos e dificuldades do dia seguinte, as coisas começam a sair do eixo. Resumindo, faltou capacidade para antecipar os problemas e se preparar para o futuro de forma menos traumática.
NA: Nessa linha, pergunto: o Brasil está preparado para perder a Copa em casa?
PA: O futebol não passa de um jogo, de um esporte apaixonante. Torço pela Seleção e espero que os jogadores tenham sabedoria para aguentar a pressão que será gigantesca. Para mim, o importante é ver a seleção jogar o verdadeiro futebol brasileiro, que alegra e encanta o mundo todo. O resto é consequencia.
NA: Roberto Dinamite é o único ex-jogador que ocupa um cargo de presidente em um dos grandes do Brasil – e podemos até contestar a gestão dele. Você se vê nesse perfil? Gostaria de ser presidente de algum clube? Qual? E como se preparar para isso?
PA: Não sei o que será de mim amanhã. Desisti de pensar nisso. Vivo um dia de cada vez. Uma coisa é certa, independente do que eu decidir fazer, irei me preparar da melhor forma possível. Platini, Cruiff e tantos outros ex-jogadores alemães são referencias de pós atletas bem sucedidos além dos gramados.
NA: Ituano campeão paulista. Em conversas com jogadores e o técnico deles, percebi que o grande segredo do time foi ter salários em dia; desde quando a obrigação se tornou trunfo?
PA: Hahaha, nem me fale um negócio desse. Esse buraco é mais fundo do que voce imagina. O futebol brasileiro quebrou.
NA: Como vê a situação do Guarani, clube que te formou na base?
PA: Com tristeza. O Guarani sempre apostou em suas categorias de base para superar os grandes desafios. Na atualidade, Edu Dracena, Renato, Elano, Jonas, Mariano e tantos outros foram formados no Brinco de Ouro. Mas o clube não soube lidar com as alterações da lei Pelé, foi mal assessorado, mal gerido e fracassou na última década. É preciso ter os pés nos chão e recomeçar do zero. Repetindo os mesmos erros não se chegará a lugar nenhum.
NA: Tendo jogado em vários centros no Brasil, você vê, no modelo atual, “risco” de Espanholização no futebol brasileiro? É possível que dentro de algum prazo tenhamos dois ou três clubes apenas disputando títulos por aqui? E a palavra risco é a mais adequada mesmo?
PA: Não acredito que isso aconteça no Brasil. Mas acho que os clubes médios e pequenos devam se unir para evitar esse cenário. O modelo ingles e o frances de divisão de receita da TV me parecem os mais justos e, de certa forma, premiam o mérito da boa gestão e do resultado esportivo. O povo brasileiro não vai para o estádio para ver um espetáculo, vai para ver o seu time ganhar, ser campeão. Se essa possibilidade se tornar quase impossível, o futebol europeu vai ganhar ainda mais aficcionados no Brasil.