Retratos

Aproveitei o feriado prolongado para visitar familiares no norte do Paraná. A predileção dos paranaenses nortistas pelo futebol de São Paulo não é mais nenhuma novidade e já foi abordada no Videocast #005.

Mas graças a alguns novos amigos e a TV a Cabo, não é mais impossível acompanhar os times da capital por lá. E assim sendo, consegui ver no sábado um pouco dos jogos do final de semana, com as derrotas de Atlético e Coritiba e a vitória do Paraná, no finzinho do jogo.

Entre um jogo e outro, apesar do assunto principal na região ser Corinthians x Santos, alguns se interessaram em saber como anda o futebol paranaense. Respondi que incorremos num erro, amparados sobre uma leitura errada do conceito de “isonomia”: a de que os três são iguais entre si e sempre que há uma análise, deve ser feita em conjunto. É um erro clássico, que mais atrapalha do que ajuda os clubes locais. Não são iguais, especialmente nesse momento. E cada qual deve ser lido e analisado como exclusivo.

O Coritiba, por exemplo. Começou mal o Brasileiro, mas dado o equilíbrio da competição, uma solitária vitória o mantém longe da famigerada zona de rebaixamento. Mas o Coxa, único representante paranaense na elite nacional, não deve ser comparado aos rivais sob qualquer prisma.

O peso de uma análise sobre o Coritiba deve ter somente o seu momento. E no jogo contra o Flamengo ficou claro que o problema está na ausência de um camisa 9 competente. O time do Flamengo é fraco. E ao repatriar Adriano e manter o reinado da balbúrdia em seu elenco, o time carioca deve sofrer nesse Brasileirão. No entanto, dominar o jogo durante boa parte do tempo não impediu o Coxa de perdê-lo. Ao contrário: à distância, o placar de 1-3 é incontestável.

A verdade é que dentro das expectativas, o Coritiba tem mesmo que se dedicar ao máximo aos dois jogos da Copa do Brasil que o separam da final. E então tentar o único título nacional que passa a ficar ao alcance dos times da terrinha. A longo prazo, será impossível competir com Corinthians, São Paulo, etc., dado o poderio financeiro desses clubes. Enquanto o Coxa pena para achar um 9 que cabe no bolso, o Corinthians dispensa Liédson. Disse aos colegas do interior que não se deve esperar mais que um 8o a 12o lugar desse time do Coritiba, mas que o São Paulo – time da preferência de alguns por lá – que bote as barbas de molho, porque em mata-mata, há a possibilidade.

Dentro do nosso costume “isonômico” de tratar o Trio, diferente entre si, da mesma maneira e com o mesmo espaço, o maior crime que se comete é com o Paraná Clube.

Equiparar o Tricolor – outrora até superior em campo e em patrimônio – à dupla é retardar a recuperação do clube. É exigir de quem não tem recursos o mesmo poder de fogo dos demais. Em Maringá, onde também estive, alguns assistiram aos jogos contra os Grêmios pela Série Prata. Ou ao menos disseram que assistiram, já que a própria cidade não sabe quem abraçar entre os dois clubes locais. Fato é que o Paraná, curiosamente o único a vencer no final de semana, não pode ser cobrado no nível dos outros clubes da capital. Tem menor aporte, menor poder financeiro. Briga para voltar à elite paranaense e se manter na Série B nacional. Será um ano a se comemorar se as coisas acabarem assim, com um resgate mais humilde. E isso deve ser passado ao torcedor. O Paraná hoje é menor que os rivais – o que não significa que o amor da torcida, buscando apoiar, participar e compreender, deva ser.

A decepção fica por conta do Atlético.

Mais do que o elenco fraco (foi vice-campeão em um campeonato de dois clubes, com derrotas e tropeços para equipes semiamadoras como o Roma de Apucarana), ou as invencionices do técnico, o problema atleticano é psicológico. O clube segue rachado. Maior orçamento da Série B, o Furacão passa longe de fazer jus ao apelido.

Em campo, um time que não tem laterais, tem apenas um zagueiro, um volante e um meia já em idade avançada, repatriou eternas promessas e fez apostas duvidosas em reforços. Um time barato, mas ineficaz. E acredito que seis meses depois da posse da nova gestão, já se possa fazer essa avaliação. E aqui entramos no real problema do Atlético, que tem recursos para buscar as soluções no gramado: a política. Criticar as escolhas da atual gestão não significa esconder o que foi mal feito no passado. Ao contrário: o passado, passou.

O Atlético hoje se escora nos erros de uma gestão infeliz em 2011 e na revolução de 1995, como se isso bastasse para que o time vencesse times de poder de fogo muito menor, como Boa Esporte e CRB. O passado vitorioso não garante um futuro vencedor, nem a canonização de quem o fez. A diretoria atual vive um estado de negação. Um distúrbio psicológico que impede os gestores de assumirem escolhas erradas e mudarem o rumo das coisas. Quem critica, é contra, é “talibã”, é adversário.

Pior do que a negação é a ausência total de compromisso com a transparência no encaminhamento do projeto de futebol do clube. A gestão de futebol jamais veio a público explicar como o Atlético retornará à elite nacional, critérios de contratação e dispensa, padrão de jogo e tudo mais; limitam-se a dizer o óbvio: o projeto é subir. Em uma das poucas aparições públicas, o diretor de futebol atleticano se mostrou indiferente às cobranças de alguns torcedores. Ao que parece, a cúpula rubro-negra vive em um mundo maravilhoso, onde em breve, mesmo sem reforços, esse time jogará como nunca e ascenderá à elite sem dificuldades. E quando isso acontecer, ai dos “detratores”. Nesse racha, nesse cenário, o Atlético está andando para trás.

Foi então que um dos colegas soltou um “que pena” e voltou a falar de Corinthians x Santos. Sequer pude condená-lo. Mas, como disse no videocast, ao menos o Coritiba terá uma chance, depois de amanhã, de tentar mudar um pouco essa história.

Abrindo o Jogo – Coluna no Jornal Metro Curitiba de 06/06/2012

Sentido litoral

Dois dos próximos jogos com mando do Atlético na Série B do Brasileiro serão no Estádio Fernando Charbub Farah, o Gigante do Itiberê, em Paranaguá. No entanto, o clube ainda tenta manter as demais partidas na Vila Capanema, contando com o apoio da CBF. As partidas contra Goiás e Ipatinga são as únicas 100% confirmadas para o estádio no litoral (98 km), com capacidade para cerca de 12 mil pessoas. Hoje, o clube divulga ter 14.434 sócios, que terão de percorrer a distância citada para ver o time. A média de público, entretanto, não tem ultrapassado as cinco mil pessoas. Uma das cartadas do Atlético para se manter em Curitiba, além da parceria na Copa, é o fato do volume de jogos do Paraná na Vila começar a diminuir, com o fim da Série Prata. A CBF tem marcado os locais dos jogos apenas dias antes dos mesmos.

Com que roupa?

Apesar de já estar há seis meses patrocinado pela Nike, o Coritiba ainda disponibiliza para seus jogadores, em treinamentos, material esportivo da antiga fornecedora, a Lotto. Segundo o clube, ainda faltam algumas peças, como o próprio material de treinamento. A justificativa da nova fornecedora é de que os materiais dessa linha são importados – por isso o atraso. Outra queixa, em especial da torcida, é a ausência da camisa 2 na linha de uniformes do Coxa. O modelo já foi aprovado pela diretoria e é predominantemente verde, para contraste com o número 1, lembrando a famosa “jogadeira”, com listras brancas. Deve ser lançada ainda no Campeonato Brasileiro, antes do aniversário de 103 anos do clube.

Desempenho

Escrevo antes do fim do jogo de ontem, entre Goiás e Paraná. O Tricolor costuma se dar bem no Serra Dourada, mas uma derrota lá é algo normal. Porém, já começa a pesar outra análise: a de que ao enfrentar times mais preparados que os da Série Prata estadual, o Paraná não tem conseguido resultados. Perdeu duas para o Palmeiras, perdeu para o América-MG, empatou com os paulistas Bragantino e Guarani (este, em casa) e como melhores resultados na temporada até aqui, dois empates com o Ceará, que valeram vaga nas oitavas da Copa do Brasil. Pode ser que o resultado que esteja nesse jornal traga novidades, mas começo a pensar que o elenco montado não é competitivo o suficiente para essa Série B. E não falo de acesso.

Arbitragem e reciclagem

Criticada ao longo de todo o Campeonato Paranaense, a arbitragem local continua desprestigiada com o início do Brasileirão. Apenas Evandro Roman e Héber Lopes estarão em campo nos 20 jogos das 3ª e 4ª rodadas. Cada um apitando um jogo. Os de sempre, sem renovação. A pensar.

Abrindo o Jogo – Coluna no Jornal Metro Curitiba de 30/05/2012

O rompante de Vilson

Mexeu com a comunidade esportiva a forte entrevista do presidente do Coritiba, Vilson Ribeiro de Andrade, após a derrota (2-3) para o Botafogo no último final de semana. Vilson qualificou torcedores como “imbecis” e fez questão de ressaltar que quem manda no Coxa é ele. Pausa. Vilson é um ser humano e como qualquer outro é sujeito a rompantes emocionais. Apesar de generalizar na declaração, o dirigente qualificou de imbecis não à todos os coxas-brancas, mas sim aos que ofendiam a esposa de Jonas (que não jogou nada mesmo), presente nas cadeiras e que saiu em defesa do marido. Seguimos. Não é natural de Vilson Andrade essa postura, de fazer questão de lembrar quem manda no Coritiba. O rompante emocional é justificável, desde que não seja tendência. Governa-se de duas maneiras: ou pelo amor, ou pela dor. Até aqui, Vilson foi paz e amor. O outro caminho existe, mas não creio que seja tomado – muito embora nunca se viu crise no Coxa com ele no comando.

O estádio, história sem fim

À pedido do Paraná Clube, a CBF remarcou o jogo da próxima terça, 05/06, entre Atlético e Ipatinga, da Vila Capanema para o Germano Kruger, em Ponta Grossa. A partida de depois de amanhã, do Atlético contra o Barueri, segue na Vila. O jogo entre Atlético x Goiás, também marcado para a Vila para um sábado, 16/06, agora está indefinido na tabela da CBF. Vamos por partes: o Paraná tem razão em chiar. Jogou ontem na Vila, joga amanhã pela Série Prata contra o Serrano, verá o Atlético jogar contra o Barueri  na sexta e caso a CBF marcasse o jogo contra o Ipatinga pra Vila, o gramado teria que agüentar ainda jogos nos dias 05, 07 e 09 de junho. Não agüenta. E nisso não estou contando nem a imposição absurda por falta de habilidade atleticana na negociação, nem o orgulho besta que permite que o Tricolor rasgue dinheiro.

Autofagia

Fato é que o jogo contra o Goiás, dentro de 19 dias, ainda pode ser na Vila. Quiçá no Couto, em Paranaguá ou em Ponta Grossa. Ninguém sabe. A CBF, creio, irá pensar e pesar caso a caso, uma vez que os clubes de Curitiba, cada qual com seu quinhão de razão, não chegaram a um consenso. É o retrato típico da cidade em que vivemos: pra que construir, se é mais fácil atrapalhar? “A Copa na cidade não presta”, “Aquele ator é curitibano? Desconfiava” ou “Nosso trânsito é um lixo.” Escolha sua linha de raciocínio e admita: o curitibano não sabe progredir em conjunto. Se em cinco anos não houve consenso, não seria durante o campeonato que o Atlético – cuja postura presidencial mais repele que agrega – iria conseguir ser visto como parceiro de um evento benéfico para a cidade. Ah!, Curitiba, tão linda e tão retrógrada.

Copa do Brasil

Preferia que o Coxa jogasse a primeira das semifinais em casa. Mas o que vale é não se assustar com o Morumbi, daqui há 17 dias. Muito menos com o irregular São Paulo.

Abrindo o Jogo – Coluna no Jornal Metro Curitiba de 23/05/2012

O estádio, parte 178
A CBF indicou a Vila Capanema para três jogos do Atlético na Série B. Acertou no atacado, errou no varejo. Não há solução fácil para a questão, pendente – acredite! – desde 2007, quando a Arena confirmou-se sede da Copa-14. O acerto da CBF: o Atlético é parceiro da entidade, da Fifa e do Estado na realização do evento. Sim, se propôs a isso e terá benesses inegáveis. Tem ainda ônus que tem pago sozinho, como se fosse dono do evento (não é, embora a classe política omissa faça questão de referendar isso). O Atlético precisa jogar em algum estádio e em Curitiba. A política é o que pega.

No varejo…
O erro é a escolha do local. A Vila está com o gramado ruim e abrigará 10 jogos em 25 dias, incluindo uma data conflitante em dois jogos do Paraná, em 09/06: encontros com o Guaratinguetá e o Grêmio Metropolitano – palmas à FPF, que não antecipou a B local. Com as chuvas na cidade não haverá gramado que resista. A obrigatoriedade, movida pela falta de diálogo, também é motivo de revolta. Com base entre outras coisas no gramado, o Coritiba ganhou ação no TJD-PR para não alugar compulsoriamente o Couto Pereira que, de fato, era o melhor local para abrigar o Atlético.

Desejo, necessidade, vontade
O Paraná promete ir à justiça para valer sua visão. O Atlético é concorrente direto na Série B e lhe dar abrigo é lhe dar força. No Estadual, o Coxa fez isso. A intenção da CBF ao escolher a Vila, induzida pela FPF, foi clara: preferiu rusga com o Tricolor que com o Coxa. E irá sempre proteger seu parceiro na Copa, não tenha dúvidas. Talvez o Paraná não tenha a mesma força política do Alviverde, mas a novela está longe de acabar. Em um mundo ideal, Coxa e Atlético se acertariam, fariam promoções nos planos de sócios; o Coritiba ganharia valorização nos espaços publicitários do Couto, movimentando a praça mais que apenas uma vez por semana. Bom para os donos de lanchonetes do estádio. Rivais em campo, parceiros fora dele, com inteligência. Certo?

Manual prático de política
Errado. A falta de diálogo é o principal problema. Até essa semana, o público só soube uma versão da história. Mário Petraglia, presidente do Atlético, só se manifestou recentemente, em carta – sem contestações. Há quem assuma como verdade absoluta. Há muita verdade, mas, sem troca de idéias, é mono. Atitudes truculentas e impositivas distanciaram qualquer acordo. A rivalidade besta também: o Atlético jogou N vezes inteira no Couto; o São Paulo FC é tricampeão do Mundo alugando o Morumbi aos rivais. Mas se Petraglia, com seu estilo, não consegue nem agregar sua própria gente, iria conseguir fazê-lo com coxas e paranistas?

Em campo
Copa do Brasil: Coxa passa pelo Vitória, mas 0-0 fora não é tão bom como se supõe. Não pode tomar gols hoje. Precisa jogar mais que em Porto Alegre. Atlético em São Paulo é zebra, só vitória ou empate com mais de três gols. Zebras acontecem, mas eu não apostaria, embora será ótimo ver ambos nas semifinais.

Videocast #003 – Brasileirão, Copa do Brasil, mando do Atlético e muito mais…

Dando continuidade ao projeto, gravação 003 já está no ar! Com Brasileirão, Copa do Brasil, mando de jogo do Atlético, Babi, covers perfeitos e muito mais! Não deixe de participar enviando suas críticas, sugestões e comentários em geral. E, claro, não deixe de compartilhar com os amigos!

Abrindo o Jogo – Coluna no Jornal Metro Curitiba de 16/05/2012

Ainda o estádio
“O Atlético transferiu pra CBF a responsabilidade. A Copa do Mundo é da CBF, nossas obras são para a Copa, ela que indique o estádio. Jogaremos onde a CBF indicar, até na China.” Esse é Mário Celso Petraglia, presidente do Atlético, em entrevista ao jornalista Oswaldo Eustáquio, da TVCI canal 14, sobre o local onde o Atlético deve mandar os jogos na Série B do Brasileiro. O prazo para indicação do local ao menos do primeiro jogo, dia 5 de junho, acaba hoje. Couto Pereira, Vila Capanema e até o Caranguejão, em Paranaguá, estão na lista. O presidente do Coritiba, Vilson Ribeiro de Andrade, esteve na CBF ontem, depois de dar novas entrevistas negando a intenção de alugar o estádio. A diretoria do Paraná, por sua vez, também já afirmou que não quer alugar mais a Vila Capanema. Todos têm sua dose de razão e pecou-se pela falta de diálogo. Seja qual for a decisão da CBF, alguém sairá desagradado.

Copa do Brasil
Em campo, por ora ainda na Vila Capanema, o Atlético recebe o Palmeiras. Jogo bom para esquecer o fracasso no Estadual e tentar chegar pela primeira vez às semifinais da Copa do Brasil. Confronto muito igual. Palmeiras conta com Marcos Assunção, Valdívia e o recém-chegado Mazinho como armas; já o herói-que-virou-vilão Guerrón é a grande arma atleticana. Na gangorra do futebol, jogo bom pra ele se recuperar. Em Salvador, tem Coritiba e Vitória. Com a moral do tri-estadual, Coxa pega o vice-baiano, que tem o artilheiro do Brasil, Neto Baiano, 31 gols. Trazer um empate com gols é de se comemorar. Confronto muito parelho também, com leve favoritismo coxa – mas que passa muito por bom resultado hoje.

E o Brasileiro?
Copa do Brasil hoje, Brasileirão Séries A e B já no final de semana. Tricampeão estadual, o Coritiba é o único paranaense na elite. Objetivamente, com os times que vieram até aqui, Coxa briga pelo G10. Está atrás de Santos, Corinthians, Fluminense, São Paulo, Vasco e Internacional. Se reforçar, pode sonhar com Libertadores. O resto dos times é igual ou pior. Na Série B, Atlético brigará pelo G4 com emoção com o elenco atual. Se reforçar, cumprirá a obrigação de subir. É o grande time da segundona 2012. Tem como adversários Guarani, Vitória, Goiás, Avaí, Ceará e Criciúma. O Paraná corre por fora. Tem potencial pra sonhar, mas tem as limitações de sempre, a começar pelo dinheiro. Outro problema do Tricolor é a maratona de jogos. Jogou segunda, joga hoje em Rolândia, sábado contra o Guarani, terça contra o Goiás. Sobra na B local, mas não terá moleza na nacional. E se não ganhar os dois turnos locais, compromete o calendário em mais dois jogos, se obrigando a jogar semifinal e final, mesmo se tiver melhor campanha. E não pode abrir espaço na B nacional, para não sofrer. Caiu no campo, mas a desorganização das tabelas e regulamentos é um crime contra o Paraná Clube.

Mini-guia da Copa do Brasil, fase IV

Tínhamos quatro, agora seguem apenas dois paranaenses na Copa do Brasil. Mas, pensando bem, não é justo o uso da palavra “apenas” para medir o desempenho de Atlético e Coritiba na principal competição nacional do primeiro semestre. Melhor pensar que, dos oito clubes restantes, 25% são daqui. Outros 25% são da Bahia, 25% de São Paulo, 12,5% de Goiás e 12,5% do Rio Grande do Sul.

Agora não tem mais moleza (se é que algum dia teve) e dentro do que eu entendo ser possível, a dupla Atletiba está atingindo o limite previsto: aposto em ambos nas semifinais e, dali por diante, o que vier é lucro.

Para isso, ambos têm que vencer seus desafios. Vamos então à analise, por ordem cronológica:

Atlético x Palmeiras

Ida: 16/05 – 19h30 – Vila Capanema, Curitiba
Volta: 23/05 – 22h – Arena Barueri, Baruei

O Palmeiras foi o algoz do Paraná Clube na fase anterior e voltará à Curitiba um pouco mais fortalecido do que quando pegou o Tricolor, ainda padecendo da eliminação no Paulistão 2012. Isso já ficou pra trás com as duas vitórias na fase anterior e com a chegada de um atacante que estreou na Vila Capenama: Mazinho.

Mazinho fez dois gols e participou de outro nos 4-0 sobre o Paraná. Contratado junto ao Oeste-SP, foi apelidado pela torcida palestrina como “Black Messi”. É rápido, habilidoso e bom de arremate. Os demais nomes perigosos do Palmeiras continuam sendo Marcos Assunção, Barcos e Valdívia. E Felipão no banco. Vale lembrar que o ex-coxa-branca Henrique, zagueiro, está fora do primeiro jogo, suspenso por expulsão.

Na história, vantagem alviverde: 17 vitórias contra 7 do Furacão – em 35 jogos desde 1968. O Atlético, que jamais passou para as semifinais, terá outro tabu: em dois confrontos pela Copa do Brasil contra o Palmeiras, foi eliminado nas duas vezes. Em 1992, duas derrotas: 0-1 e 1-3. Em 2010, uma derrota e um empate: 0-1 e 1-1 na Arena, com gol do atual coxa-branca Lincoln já no finzinho do jogo:

Mas a série ficou marcada mesmo pela briga entre o ex-atleticano Danilo e o zagueiro Manoel, ofendido pelo ex-companheiro, num episódio lamentável de racismo, lembrado nessa reportagem da TV Bandeirantes:

Se passar pelo Palmeiras, o Furacão pega o vencedor de Grêmio x Bahia nas semis.

Coritiba x Vitória

Ida: 16/05 – 21h50 – Barradão, Salvador
Volta:  23/05 – 22h – Couto Pereira, Curitiba

Tricampeão paranaense, o Coxa mal teve tempo de comemorar e já atravessou o País para pegar um vice-campeão estadual: o Vitória. O time baiano perdeu o título em confronto com o maior rival, Bahia, após dois empates. É possível que ainda sinta o golpe, mas está longe de ser uma galinha morta. Na fase anterior, superou o Botafogo vencendo o jogo no Rio de Janeiro. E tem o artilheiro do Brasil na temporada: Neto Baiano, com 31 gols entre Baianão e Copa do Brasil.

O Vitória é comandado por um interino, Ricardo Silva, que substituiu Toninho Cerezo no comando em meio ao Baiano 2012. O zagueiro Rodrigo Silva (ex-Santos), o volante Robston (sim, aquele) e os meias Geovanni (ex-Barcelona), Tartá (ex-Atlético) e Lúcio Flávio (que começou no Paraná) são os rostos mais conhecidos do rubro-negro baiano, que ainda tem os ex-coxas-brancas Rodrigo Mancha e Pedro Ken, autor de um golaço contra o Botafogo na última fase:

Na história, vantagem coxa-branca com 11 vitórias e oito derrotas em 26 jogos. As equipes nunca se enfrentaram pela Copa do Brasil.

Atual vice-campeão, o Coxa tenta chegar pela quinta vez na história às semifinais.

Se passar pelo Vitória, o Coritiba encara São Paulo ou Goiás nas semifinais.

O campeão, a festa e as lições

Marcelo Oliveira sobreviveu às críticas e levou o caneco

Supremacia consolidada: mesmo sofrido, nos pênaltis, o Coritiba ficou com a taça do Paranaense 2012 e coroou o renascimento do clube após os episódios de 2009: tricampeão estadual depois 39 anos. Uma conquista com muitos elementos, mas que tem alguns símbolos: Vilson Ribeiro de Andrade, o capitão da reação; Felipe Ximenes, o mentor; e Marcelo Oliveira, o executor.

Os números não deixam dúvidas: o Coxa foi o melhor time do Paranaense 2012. Melhor ataque, com 55 gols, maior número de vitórias (16) e menor de derrotas (apenas 1), um aproveitamento de 80%. Foi o único a vencer clássico e sairá da temporada – a não ser que os rivais se cruzem na decisão da Copa do Brasil, o que é possível – sem perder Atletibas.

Hão de dizer que houve erros de arbitragem que ajudaram o Coritiba, como o já histórico gol anulado do Londrina em disputa direta. Fato. Mas na hora da onça beber água, o Coxa foi buscar os resultados que lhe interessaram.

O Coritiba sai do Estadual com o astral em alta e sabedor das limitações que tem. No clássico de ontem, improvisou os dois laterais (Lucas Mendes é zagueiro, embora já tenha mais currículo como lateral-esquerdo), foi pouco criativo no primeiro tempo, com saída de bola lenta e se ressentiu de mais presença no ataque. Mas tem uma boa defesa e descobriu em Éverton Ribeiro um potencial substituto para Marcos Aurélio. Quando Rafinha recuperar a condição física, a dupla poderá dar samba.

Nas comemorações, Marcelo Oliveira e o vice-presidente Ernesto Pedroso admitiram uma briga interna entre o técnico e o superintendente Felipe Ximenes. A razão seria duas opiniões diferentes sobre a montagem do elenco. É fato que Marcelo Oliveira teve que remontar a equipe, que não tem a mesma força de 2011. E foi ele quem absorveu as críticas da torcida – mas, se o clube não tivesse comando, poderia ter deixado o barco no meio. Deu a entender que segue no Coritiba. Melhor assim: mesmo com algumas críticas, Marcelo entende o projeto do Coritiba, as limitações financeiras e as ambições do clube. E não é fácil substituir: sempre que se falar em trocar o técnico, faça a você mesmo a pergunta, “e quem vem?”

Vanderlei, que havia falhado no primeiro jogo, recuperou-se defendendo a cobrança de Guerrón. Justo Guerrón, de quem os atleticanos esperavam mais e, sintomaticamente, era o mais vaiado em campo pela torcida coxa quando pegava na bola. Faz parte das ricas histórias do futebol: redenção de um, condenação de outro. Guerrón e o Atlético serão assunto mais abaixo; já Vanderlei chega ao penta-estadual (venceu com o ACP em 2007) mostrando apenas que não é infalível, mas é um bom goleiro.

Quem também sorri é Tcheco, líder da equipe em campo, encerrando a carreira em alta e em casa. Tcheco é peça impossível de se repor por tudo o que representa, mas o papel de líder caberá a alguém que o Coxa deve buscar para o Brasileiro. Quem? Não sei. Mas equipes vencedoras precisam de uma referência em campo.

Como já disse o Leo Mendes Jr., o gol do título, de Éverton Ribeiro, simboliza o que foi o campeonato coxa-branca: parecia que não ia, quando deu na trave, mas entrou. A ressaca pelo título tem que ser curada hoje: na quarta, tem Salvador no caminho, pela Copa do Brasil, contra o Vitória. O tri é digno de festa e, em um campeonato de dois times, mexe com o ego e em si mesmo é um fim, pois a razão de um clube de futebol é levantar taças. Mas o vôo tem que ser mais alto e, passada a festa, o trabalho segue. Já no domingo, tem Campeonato Brasileiro.

As lições

O Coritiba tricampeão tem muito a ensinar ao Atlético. Em 2009, mascarada pelo centenário do clube, a crise rondava o Alto da Glória. Dirigentes se aproveitando do clube para fazer política, disputa interna, muita vaidade, elenco disperso. Para festa, prometeu-se AC/DC, veio a banda 100% Paraíba, do camisa 10 Marcelinho – mais politicagem. Fanfarronices agudas, que resultaram no que todos já sabem. O rebaixamento, as punições e a quase falência do clube, admitida pelo atual presidente Vilson Ribeiro de Andrade, só foi evitada porque houve assertividade nas escolhas. Projeto de longo prazo com técnicos (se a CBF não chama Ney Franco, estaria até agora aqui; Marcelo Oliveira segue na mesma linha), contratações com perfil de identificação ao clube, demonstrações de maturidade dos dirigentes, que nunca evitaram as críticas, apenas lidam melhor com elas.

O Atlético levantou a taça pela última vez em 2009, em meio a esse panorama coxa-branca. Não fosse isso e o Coritiba poderia ser penta. E o Furacão, àquela época, já demonstrava que perdeu o rumo na administração, com a atual gestão batendo forte na anterior – que, diga-se, cometeu muitos erros.

Para voltar a crescer, o Atlético precisa se resolver internamente. A cada derrota, os atleticanos se dividem em Petraglistas e Malucellistas, como se só as duas figuras importassem. Precisa também ter um objetivo: clube de futebol existe para vencer, não ser apenas superavitário. Se os estaduais estão falidos e são desinteressantes (e de fato estão), são também a conquista mais a mão do clube. Num campeonato com dois clubes, o Atlético foi o segundo.

A atual diretoria prefere atacar à responder. Não se sabe onde o clube jogará no Brasileiro B, já que o estádio que tem e cederá à Copa da Fifa está em obras e não chegou a um acordo com os rivais; mas esse assunto não é abordado pela diretoria. Como nenhum outro: questionar a direção atleticana é quase um crime. Pode ser o plano de sócios, os critérios de contratação da gestão de futebol, o currículo dos profissionais escolhidos no cargo ou ainda o departamento de marketing e comunicação, ineficaz e com escolhas distorcidas.

Personificando o clube como se fosse apenas seu, o atual presidente não responde sobre contratações, ambições, projetos, dívidas, etc. Prefere usar os veículos oficiais para atacar quem o questiona. Sem explorar os espaços de mídia que tem, o clube levanta sobre si um sem número de boatos e o principal: não ostenta um patrocínio central na camisa, fonte de renda importantíssima.

Durante a semana, uma despropositada carta a arbitragem sob o pretexto de motivação simbolizou a gestão em comunicação do clube. Se não era ofensiva, perdeu o sentido por não ter valor prático – arbitragem já definida e para questioná-la existem outros meios – e principalmente por não valorizar a própria necessidade do clube, preferindo amparar-se no rival. Desnecessária.

Por sua vez, o Coritiba, que tem janelas e horários para entrevistas como qualquer outro clube, lida melhor com a relação com a mídia e tem, apenas na camisa, 9% de sua arrecadação.

O Atlético de hoje propõe-se a ser campeão do Mundo, mas não vence sequer o campeonato que ele mesmo despreza. Há uma falta de sintonia entre o discurso e a prática.

Evidentemente, não está tudo errado. O Estadual serve para o Atlético ver que o time é mediano. Para voltar à Série A, carece de reforços. O técnico Juan Ramón Carrasco é bom: basta ver que aproveitou a base que caiu em 2011 e alguns pratas da casa e fez um time competitivo. Mas é pouco. Rodolfo, Liguera, Ricardinho e Edigar Junio são boas surpresas. Outros, como o goleiro Vinícius, desperdiçaram oportunidades. Mesmo Guerrón, que na hora H acaba refugando – um Baloubet du Roet dos campos – tem utilidade na Série B e na Copa do Brasil. Só é preciso entender melhor a cabeça do equatoriano, que dizem os próximos, vive em mundo só seu.

Petraglia tem uma inigualável lista de serviços prestados ao próprio Atlético. Mas deveria aproveitar essa segunda, com ressaca de derrota, para refazer alguns conceitos. O exemplo está logo ao lado.

Estaduais

O campeão é o melhor time do Paraná e tem mais é que fazer festa. Mas os Estaduais estão mofando no calendário brasileiro. À exceção do Paulistão e do Carioca, amparado pela maior rede de TV do país, os demais dão prejuízo. São cinco meses perdidos, com déficit em arrecadação, pouca atratividade e pouca competitividade. O abismo que se abre entre os médios – onde estão os paranaenses –  e os gigantes nacionais só aumenta com os Estaduais.

Passou da hora de retomar os Regionais. Não é preciso ser mágico pra saber que um Grêmio x Coritiba levará mais gente ao campo ou à frente da telinha que um jogo com o Iraty. Os Estaduais devem ser uma porta de acesso aos Regionais, movimentando o calendário o ano todo. O que mataria o futebol do interior não é o fim desse tipo de competição e sim o que já acontece: um clube com a história e estrutura do Londrina parado o resto do ano. O mesmo para o Operário. Estes, se não estiverem nos Regionais, devem jogar um Estadual de ano inteiro, disputando vaga na Copa do Brasil e na Copa Sul.

Não é difícil, é só copiar o que já foi feito. Impulsionará o futebol local de várias maneiras. Mas é preciso vontade e desapego político.

Pensando bem, é difícil sim.

Videocast #002 – Abrindo o jogo dessa p#rr@ aí

Gravação 002 tá no ar! Com Copa do Brasil, decisão do Paranaense, a sua participação e um monte de gente falando palavrões nos gramados do Brasil! (Favor não assistir com menores ao lado.)