O fim do Pinheirão?

Arremate foi feito e estádio deixará de existir

O estádio do Pinheirão foi arrematado por R$ 57,5 milhões na tarde desta quinta-feira, em leilão em Curitiba. O comprador foi identificado como João Destro, que seria representante do grupo atacadista Destro (update: Reginaldo Cordeiro, inspetor da FPF, identificou-o como representante da J D Engenharia) . A FPF não conseguiu o valor necessário para retirar o imóvel do leilão, como havia feito na primeira vez em que o Pinheirão esteve perto de ser leiloado, tampouco conseguiu uma liminar que impedisse a venda. Neste ano, a FPF conseguiu cerca de R$ 700 mil junto às federações gaúcha e catarinense e impediu o leilão – garante já ter pago essa dívida.

Com isso, poe-se um fim em uma história de 27 anos, completos no último dia 15, desde que as seleções paranaense e catarinense fizeram a bola rolar no campo projetado ainda nos anos 60 para ser o “Maracanã Paranaense.”

O Pinheirão quase sepultou o Atlético – que é credor de parte desse dinheiro, segundo conselheiros do clube, R$ 15 milhões – e o Paraná Clube. Muito embora os resultados em campo não foram ruins para a dupla, o estigma do estádio, considerado longe e de difícil acesso, espantava os torcedores. A eterna pendência em finalizá-lo era outro problema. O Paraná, por exemplo, chegou a fazer contrato de arrendamento de 100 anos com a FPF pela praça.

Na FPF, ainda se estuda entrar com alguma medida judicial ou mesmo aguardar o desenrolar do processo de arremate, que inclui uma vasta documentação e pagamentos a serem comprovados. A FPF foi, até a data de hoje, a única federação brasileira a ter um estádio. Muitos confundem o Pinheirão com um estádio público –  o que não é verdade, embora haja um acordo com a prefeitura pela cessão do terreno.

Pelo que pude apurar na FPF, a venda do Pinheirão via leilão é considerada ruim, mas nem tanto. Ruim porque perde-se um patrimônio com potencial para ser vendido por um valor ainda maior. Nem tão ruim porque injeta dinheiro nos cofres da instituição, ainda que todo o recurso seja imediatamente direcionado para os credores. A FPF ficaria praticamente livre de toda a dívida que tem, podendo finalmente contar com um caixa administrável.

Ainda resta saber qual o destino do terreno, que esteve na mira do Coritiba para a construção de um novo estádio. Um dispositivo no acordo entre FPF e prefeitura exige que o local seja usado para fins esportivos. Os próximos dias podem reservar uma grande surpresa com a confirmação do arremate. Seja um novo estádio ou o fim do local como praça esportiva.

Abrindo o Jogo – Coluna no Jornal Metro Curitiba de 27/06/2012

O compromisso com o erro

Está tudo errado no futebol do Atlético em 2012 e a classificação na Série B do Brasileiro atesta isso. Por isso, apesar de cair na chacota popular, a troca de comando técnico – ainda não 100% confirmada – de Ricardo Drubscky, recém chegado (dois jogos) não deve ser vista como um erro; é uma correção de rota. Erro é insistir em um técnico inexperiente comandando um elenco falho. Drubscky, até o fechamento dessa coluna ainda no cargo, não tem o perfil necessário que o Furacão precisa para voltar à elite ainda nesse ano. Pode ser útil na base, no Sub-23, time que deverá jogar o Estadual 2013. Mas para a Série B o nome de Jorginho, campeão desta competição no ano passado com a Portuguesa, é sem dúvida o mais adequado ao momento. Atlético ou ninguém deve ter compromisso com o erro e ao se confirmar essa informação, isso deve ser mais valorizado do que a aposta errada. Mas vale lembrar que só a troca de treinador não resolve: reforços são exigidos para o objetivo.

A frase

“O melhor para o torcedor do Atlético é ver o time campeão e de volta a Serie A. O Atlético precisa ser forte e eu to pensando mais no Atlético”, disse Jorginho, dando a entender que comprou o projeto, em entrevista à Rádio CBN Curitiba ontem.

O símbolo

Dinheiro não é tudo, nem mesmo no mercado do futebol. Lúcio Flávio estreou bem e faz bem ao Paraná Clube – que já é melhor que o Atlético na Série B.

O fator casa

Faltam ainda 15 dias para o início da série decisiva da Copa do Brasil entre Coritiba e Palmeiras, mas desde já firmo posição. No campo, confronto equilibrado, com o Coxa vivendo um momento ligeiramente melhor. Fora dele, vantagem ampla paranaense. Não dá para negar que o Couto Pereira pesará na decisão, enquanto o Palmeiras mandará o jogo em um campo sem identificação, Barueri. Esse ano, o Coxa não deixa escapar.

Pobre mercado esportivo

Defende – justamente – fim da censura em alguns casos, mas aplica censura velada em outros; majora em 40% o valor da anuidade, sem realizar reciclagem de profissionais, ciclo de palestras, integração com universidades e outros benefícios para a classe; tornou-se um pedágio inconstitucional para o trabalho, mesmo de quem está referendado por um veículo, tem 10 anos de exercício, formação acadêmica e está autorizado pelo dono do espetáculo; usa de truculência nas ações; libera associação mediante pagamento, se pretendendo reguladora profissional, botando os clubes em maus lençóis; serve como trampolim político. Qual o futuro de quem leva a notícia ao público esportivo com esse cenário em determinada associação? Que interesses são defendidos por quem escreve a notícia que você lê/ouve? Olho aberto, leitor.

Abrindo o Jogo Entrevista: Mauro Holzmann

Mais uma da série Abrindo o Jogo Entrevista, desta vez com o diretor de comunicação e marketing do Atlético, Mauro Holzmann.

Em um bate-papo franco, Holzmann criticou a postura da cidade quanto à Copa 2014, detalhou alguns projetos do Atlético, afirmou que o clube ainda tenta mandar jogos em Curitiba na Série B nacional e falou sobre os “tuitaços” de Mário Celso Petraglia: “O presidente é emocional, é um fanático como muitos outros.”

Assista e comente!

Outras Entrevistas da Série:

Vilson Ribeiro de Andrade (Coritiba) – Clique para ver

Vladimir Carvalho (Paraná) – Clique para ver

 

Retratos

Aproveitei o feriado prolongado para visitar familiares no norte do Paraná. A predileção dos paranaenses nortistas pelo futebol de São Paulo não é mais nenhuma novidade e já foi abordada no Videocast #005.

Mas graças a alguns novos amigos e a TV a Cabo, não é mais impossível acompanhar os times da capital por lá. E assim sendo, consegui ver no sábado um pouco dos jogos do final de semana, com as derrotas de Atlético e Coritiba e a vitória do Paraná, no finzinho do jogo.

Entre um jogo e outro, apesar do assunto principal na região ser Corinthians x Santos, alguns se interessaram em saber como anda o futebol paranaense. Respondi que incorremos num erro, amparados sobre uma leitura errada do conceito de “isonomia”: a de que os três são iguais entre si e sempre que há uma análise, deve ser feita em conjunto. É um erro clássico, que mais atrapalha do que ajuda os clubes locais. Não são iguais, especialmente nesse momento. E cada qual deve ser lido e analisado como exclusivo.

O Coritiba, por exemplo. Começou mal o Brasileiro, mas dado o equilíbrio da competição, uma solitária vitória o mantém longe da famigerada zona de rebaixamento. Mas o Coxa, único representante paranaense na elite nacional, não deve ser comparado aos rivais sob qualquer prisma.

O peso de uma análise sobre o Coritiba deve ter somente o seu momento. E no jogo contra o Flamengo ficou claro que o problema está na ausência de um camisa 9 competente. O time do Flamengo é fraco. E ao repatriar Adriano e manter o reinado da balbúrdia em seu elenco, o time carioca deve sofrer nesse Brasileirão. No entanto, dominar o jogo durante boa parte do tempo não impediu o Coxa de perdê-lo. Ao contrário: à distância, o placar de 1-3 é incontestável.

A verdade é que dentro das expectativas, o Coritiba tem mesmo que se dedicar ao máximo aos dois jogos da Copa do Brasil que o separam da final. E então tentar o único título nacional que passa a ficar ao alcance dos times da terrinha. A longo prazo, será impossível competir com Corinthians, São Paulo, etc., dado o poderio financeiro desses clubes. Enquanto o Coxa pena para achar um 9 que cabe no bolso, o Corinthians dispensa Liédson. Disse aos colegas do interior que não se deve esperar mais que um 8o a 12o lugar desse time do Coritiba, mas que o São Paulo – time da preferência de alguns por lá – que bote as barbas de molho, porque em mata-mata, há a possibilidade.

Dentro do nosso costume “isonômico” de tratar o Trio, diferente entre si, da mesma maneira e com o mesmo espaço, o maior crime que se comete é com o Paraná Clube.

Equiparar o Tricolor – outrora até superior em campo e em patrimônio – à dupla é retardar a recuperação do clube. É exigir de quem não tem recursos o mesmo poder de fogo dos demais. Em Maringá, onde também estive, alguns assistiram aos jogos contra os Grêmios pela Série Prata. Ou ao menos disseram que assistiram, já que a própria cidade não sabe quem abraçar entre os dois clubes locais. Fato é que o Paraná, curiosamente o único a vencer no final de semana, não pode ser cobrado no nível dos outros clubes da capital. Tem menor aporte, menor poder financeiro. Briga para voltar à elite paranaense e se manter na Série B nacional. Será um ano a se comemorar se as coisas acabarem assim, com um resgate mais humilde. E isso deve ser passado ao torcedor. O Paraná hoje é menor que os rivais – o que não significa que o amor da torcida, buscando apoiar, participar e compreender, deva ser.

A decepção fica por conta do Atlético.

Mais do que o elenco fraco (foi vice-campeão em um campeonato de dois clubes, com derrotas e tropeços para equipes semiamadoras como o Roma de Apucarana), ou as invencionices do técnico, o problema atleticano é psicológico. O clube segue rachado. Maior orçamento da Série B, o Furacão passa longe de fazer jus ao apelido.

Em campo, um time que não tem laterais, tem apenas um zagueiro, um volante e um meia já em idade avançada, repatriou eternas promessas e fez apostas duvidosas em reforços. Um time barato, mas ineficaz. E acredito que seis meses depois da posse da nova gestão, já se possa fazer essa avaliação. E aqui entramos no real problema do Atlético, que tem recursos para buscar as soluções no gramado: a política. Criticar as escolhas da atual gestão não significa esconder o que foi mal feito no passado. Ao contrário: o passado, passou.

O Atlético hoje se escora nos erros de uma gestão infeliz em 2011 e na revolução de 1995, como se isso bastasse para que o time vencesse times de poder de fogo muito menor, como Boa Esporte e CRB. O passado vitorioso não garante um futuro vencedor, nem a canonização de quem o fez. A diretoria atual vive um estado de negação. Um distúrbio psicológico que impede os gestores de assumirem escolhas erradas e mudarem o rumo das coisas. Quem critica, é contra, é “talibã”, é adversário.

Pior do que a negação é a ausência total de compromisso com a transparência no encaminhamento do projeto de futebol do clube. A gestão de futebol jamais veio a público explicar como o Atlético retornará à elite nacional, critérios de contratação e dispensa, padrão de jogo e tudo mais; limitam-se a dizer o óbvio: o projeto é subir. Em uma das poucas aparições públicas, o diretor de futebol atleticano se mostrou indiferente às cobranças de alguns torcedores. Ao que parece, a cúpula rubro-negra vive em um mundo maravilhoso, onde em breve, mesmo sem reforços, esse time jogará como nunca e ascenderá à elite sem dificuldades. E quando isso acontecer, ai dos “detratores”. Nesse racha, nesse cenário, o Atlético está andando para trás.

Foi então que um dos colegas soltou um “que pena” e voltou a falar de Corinthians x Santos. Sequer pude condená-lo. Mas, como disse no videocast, ao menos o Coritiba terá uma chance, depois de amanhã, de tentar mudar um pouco essa história.

Abrindo o Jogo – Coluna no Jornal Metro Curitiba de 06/06/2012

Sentido litoral

Dois dos próximos jogos com mando do Atlético na Série B do Brasileiro serão no Estádio Fernando Charbub Farah, o Gigante do Itiberê, em Paranaguá. No entanto, o clube ainda tenta manter as demais partidas na Vila Capanema, contando com o apoio da CBF. As partidas contra Goiás e Ipatinga são as únicas 100% confirmadas para o estádio no litoral (98 km), com capacidade para cerca de 12 mil pessoas. Hoje, o clube divulga ter 14.434 sócios, que terão de percorrer a distância citada para ver o time. A média de público, entretanto, não tem ultrapassado as cinco mil pessoas. Uma das cartadas do Atlético para se manter em Curitiba, além da parceria na Copa, é o fato do volume de jogos do Paraná na Vila começar a diminuir, com o fim da Série Prata. A CBF tem marcado os locais dos jogos apenas dias antes dos mesmos.

Com que roupa?

Apesar de já estar há seis meses patrocinado pela Nike, o Coritiba ainda disponibiliza para seus jogadores, em treinamentos, material esportivo da antiga fornecedora, a Lotto. Segundo o clube, ainda faltam algumas peças, como o próprio material de treinamento. A justificativa da nova fornecedora é de que os materiais dessa linha são importados – por isso o atraso. Outra queixa, em especial da torcida, é a ausência da camisa 2 na linha de uniformes do Coxa. O modelo já foi aprovado pela diretoria e é predominantemente verde, para contraste com o número 1, lembrando a famosa “jogadeira”, com listras brancas. Deve ser lançada ainda no Campeonato Brasileiro, antes do aniversário de 103 anos do clube.

Desempenho

Escrevo antes do fim do jogo de ontem, entre Goiás e Paraná. O Tricolor costuma se dar bem no Serra Dourada, mas uma derrota lá é algo normal. Porém, já começa a pesar outra análise: a de que ao enfrentar times mais preparados que os da Série Prata estadual, o Paraná não tem conseguido resultados. Perdeu duas para o Palmeiras, perdeu para o América-MG, empatou com os paulistas Bragantino e Guarani (este, em casa) e como melhores resultados na temporada até aqui, dois empates com o Ceará, que valeram vaga nas oitavas da Copa do Brasil. Pode ser que o resultado que esteja nesse jornal traga novidades, mas começo a pensar que o elenco montado não é competitivo o suficiente para essa Série B. E não falo de acesso.

Arbitragem e reciclagem

Criticada ao longo de todo o Campeonato Paranaense, a arbitragem local continua desprestigiada com o início do Brasileirão. Apenas Evandro Roman e Héber Lopes estarão em campo nos 20 jogos das 3ª e 4ª rodadas. Cada um apitando um jogo. Os de sempre, sem renovação. A pensar.

Abrindo o Jogo – Coluna no Jornal Metro Curitiba de 30/05/2012

O rompante de Vilson

Mexeu com a comunidade esportiva a forte entrevista do presidente do Coritiba, Vilson Ribeiro de Andrade, após a derrota (2-3) para o Botafogo no último final de semana. Vilson qualificou torcedores como “imbecis” e fez questão de ressaltar que quem manda no Coxa é ele. Pausa. Vilson é um ser humano e como qualquer outro é sujeito a rompantes emocionais. Apesar de generalizar na declaração, o dirigente qualificou de imbecis não à todos os coxas-brancas, mas sim aos que ofendiam a esposa de Jonas (que não jogou nada mesmo), presente nas cadeiras e que saiu em defesa do marido. Seguimos. Não é natural de Vilson Andrade essa postura, de fazer questão de lembrar quem manda no Coritiba. O rompante emocional é justificável, desde que não seja tendência. Governa-se de duas maneiras: ou pelo amor, ou pela dor. Até aqui, Vilson foi paz e amor. O outro caminho existe, mas não creio que seja tomado – muito embora nunca se viu crise no Coxa com ele no comando.

O estádio, história sem fim

À pedido do Paraná Clube, a CBF remarcou o jogo da próxima terça, 05/06, entre Atlético e Ipatinga, da Vila Capanema para o Germano Kruger, em Ponta Grossa. A partida de depois de amanhã, do Atlético contra o Barueri, segue na Vila. O jogo entre Atlético x Goiás, também marcado para a Vila para um sábado, 16/06, agora está indefinido na tabela da CBF. Vamos por partes: o Paraná tem razão em chiar. Jogou ontem na Vila, joga amanhã pela Série Prata contra o Serrano, verá o Atlético jogar contra o Barueri  na sexta e caso a CBF marcasse o jogo contra o Ipatinga pra Vila, o gramado teria que agüentar ainda jogos nos dias 05, 07 e 09 de junho. Não agüenta. E nisso não estou contando nem a imposição absurda por falta de habilidade atleticana na negociação, nem o orgulho besta que permite que o Tricolor rasgue dinheiro.

Autofagia

Fato é que o jogo contra o Goiás, dentro de 19 dias, ainda pode ser na Vila. Quiçá no Couto, em Paranaguá ou em Ponta Grossa. Ninguém sabe. A CBF, creio, irá pensar e pesar caso a caso, uma vez que os clubes de Curitiba, cada qual com seu quinhão de razão, não chegaram a um consenso. É o retrato típico da cidade em que vivemos: pra que construir, se é mais fácil atrapalhar? “A Copa na cidade não presta”, “Aquele ator é curitibano? Desconfiava” ou “Nosso trânsito é um lixo.” Escolha sua linha de raciocínio e admita: o curitibano não sabe progredir em conjunto. Se em cinco anos não houve consenso, não seria durante o campeonato que o Atlético – cuja postura presidencial mais repele que agrega – iria conseguir ser visto como parceiro de um evento benéfico para a cidade. Ah!, Curitiba, tão linda e tão retrógrada.

Copa do Brasil

Preferia que o Coxa jogasse a primeira das semifinais em casa. Mas o que vale é não se assustar com o Morumbi, daqui há 17 dias. Muito menos com o irregular São Paulo.

Copa 2014: Gestor municipal fala sobre o Mundial

Durante o Footecom Curitiba 2012, conversei com Luiz de Carvalho, gestor de Curitiba para a Copa 2014. No papo, algumas questões básicas mas ainda não muito claras para o cidadão comum: qual a real importância da Copa para a cidade? Por que não se vê ação de marketing sobre o Mundial em Curitiba? Como combater a rejeição de alguns segmentos quanto à Copa 2014 na cidade? A quem interessa a Copa afinal?

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Yes, nós temos projeto

OU: COMO O CORITIBA CHEGOU A MAIS UMA SEMIFINAL DE COPA DO BRASIL

Projeto. Palavrinha mágica – e batida – no futebol nos dias de hoje. Todo mundo tem projeto. Até o ex-presidente do Corinthians, Andrés Sanches, que destratou o sistema Barcelona de futebol mas, convenhamos, de Ronaldo pra cá colocou o Timão em outro patamar. É projeto pra cá, projeto pra lá. Venceu, o projeto está no caminho certo; perdeu, “calma, que o projeto é longo.”

Mas o que é projeto? E o que explica o Coritiba, orçamento 1/4 do que recebem São Paulo e Flamengo (por exemplo) chegar pelo segundo ano seguido à semifinal da Copa do Brasil – a quinta na sua história? É o mesmo sistema que vinha sendo criticado no Paranaense?

Projeto no futebol não pode se basear no resultado, mas tem que ter o resultado por finalidade, capicce? Ferran Soriano, ex-diretor do Barcelona, ensina em seu livro “A bola não entra por acaso”, que quando John Terry partiu para a cobrança do pênalti decisivo contra o Manchester United em 2008, escorregou e perdeu a chance de ganhar a Champions League, que o futebol é feito de escolhas e acasos. As escolhas corretas reduzem os acasos. Talvez Terry, capitão e formado no Chelsea, não fosse o mais indicado a bater o pênalti mais importante da história do clube naquele ano. Estava emocionalmente muito envolvido. O tempo passou e o projeto do Chelsea, que na verdade é um aporte pesado de dinheiro, acabou vingando em 2012. Mas, me cobrem no futuro, o Barcelona, que caiu para o mesmo Chelsea nesse ano, mas tem um projeto de identidade e longo prazo, vai seguir sendo o melhor; o Chelsea, envelhecido, terá que gastar mais para ter um time campeão novamente.

Ok, e o Coxa? Bem, não é uma coincidência o Coritiba chegar pelo segundo ano seguido à semifinal da Copa do Brasil. Se pegou uma chave “fácil”, ótimo; o Botafogo, com maior investimento, esteve na mesma chave e caiu. Se será campeão, é outra história: entre os quatro que devem chegar (escrevo antes de Grêmio x Bahia e aposto nos gaúchos) é o que tem menor poder financeiro e está levemente abaixo do São Paulo tecnicamente. Mas ali no campo, tudo é possível.

O Coxa, vale relembrar, ressurgiu das cinzas em 2010, com a entrada de Vilson Ribeiro de Andrade na vice-presidência. Esteve às portas da falência, viveu uma queda traumática para a Série B no ano do centenário do clube e apenas quatro anos depois de já ter caído. Em 2005, quando caiu pela primeira vez nessa sequência, tinha no comando um presidente com personalidade forte, que partiu para o atrito com a torcida diversas vezes. Era comandado meio a esmo: Giovani Gionédis fazia o que ele achava correto, apostando na velha guarda para a montagem do time. Caiu e voltou, dois anos depois, com um time montado só com a base. Mas não era um projeto: já com Jair Cirino no comando, caiu de novo em 2009 quando as vaidades foram maiores que o clube. Todos queriam tirar uma casquinha, fazer campanha. Uma estrela desagregadora no elenco, algumas panelinhas, comando dividido e fraco… deu no que deu.

Na época, Felipe Ximenes já era diretor do clube. Mas estava com o trabalho suprimido pela chegada de João Carlos Vialle, histórico coxa-branca, diretor de futebol à moda antiga. Ximenes me revelou que pediu para ir embora duas vezes. Cirino o impediu. Quando o clube foi rebaixado e poucos restavam para querer assumir, Ximenes atendeu novo pedido de Cirino, que por si próprio já atendera a um desejo de Andrade: ficar para resgatar a própria imagem. Nos bastidores, Cirino é muito bem-quisto por todos. Mantido no cargo, voltou à elite com um título estadual e o bi da B de cabo a rabo, com direito a 28 jogos fora de Curitiba.

Àquela época, o Coxa já construía o que se vê hoje. Todo jogador contratado é levado a conhecer a história do clube. Andrade e Ximenes se reúnem com atleta e empresário e querem conhecer o perfil profissional do jogador. É bom jogador? É boa pessoa? É agregador? Tem caráter? Quer vencer na vida? Essa linha pesa na impressão que ambos têm do jogador antes de bater o martelo. Previamente, são escolhidos pelo padrão técnico e tático. Andrade era da arquibancada nos anos 70, de supremacia coxa. Um time técnico, com meio campo forte e ataque rápido. Hoje, escolhe jogadores com características que atendam o Coxa que o torcedor quer ver em campo, com um estilo de jogo.

O técnico tem de ser uma pessoa que dirija o elenco, mas seja acima de tudo bom funcionário. Entenda que o clube precisa negociar e não fique pedindo reforços. E entenda como o time deve jogar. Ney Franco primeiro, Marcelo Oliveira agora. Pessoas tranquilas, competentes, e que deram um padrão de jogo ao time. Que sim, perdeu peças – e ainda não repôs a altura algumas – mas segue numa batida firme. Marcos Aurélio foi liberado ao Inter porque o clube via em Everton Ribeiro um jogador com características parecidas. Demorou, mas ele vem rendendo. O goleiro Edson Bastos só foi liberado agora porque já está com uma idade em que precisa jogar para ganhar melhor – está perto de parar. E porque Victor Brasil se apresenta como um bom banco.

Salários em dia, gestão de marketing correndo em paralelo, com Doth Leite, completam o projeto alviverde. Esteve perto de ir à Libertadores por duas vezes em 2011; perdeu uma em casa e outra em um clássico. Sem rompantes emocionais, seguiu o rumo.

Nem tudo é perfeito; existem erros, escolhas questionáveis, parcerias, posturas diversas. Mas, em linhas gerais, o Coxa tem um norte e continua na mesma batida. Raramente se envolve em polêmicas, os dirigentes não vetam entrevistas ou se escondem de certos temas. Quando questionados, apresentam suas versões. E, o mais importante, o time têm mantido a hegemonia local e chega de novo à uma reta decisiva nacional.

Projeto, de fato, é isso.

Abrindo o Jogo – Coluna no Jornal Metro Curitiba de 23/05/2012

O estádio, parte 178
A CBF indicou a Vila Capanema para três jogos do Atlético na Série B. Acertou no atacado, errou no varejo. Não há solução fácil para a questão, pendente – acredite! – desde 2007, quando a Arena confirmou-se sede da Copa-14. O acerto da CBF: o Atlético é parceiro da entidade, da Fifa e do Estado na realização do evento. Sim, se propôs a isso e terá benesses inegáveis. Tem ainda ônus que tem pago sozinho, como se fosse dono do evento (não é, embora a classe política omissa faça questão de referendar isso). O Atlético precisa jogar em algum estádio e em Curitiba. A política é o que pega.

No varejo…
O erro é a escolha do local. A Vila está com o gramado ruim e abrigará 10 jogos em 25 dias, incluindo uma data conflitante em dois jogos do Paraná, em 09/06: encontros com o Guaratinguetá e o Grêmio Metropolitano – palmas à FPF, que não antecipou a B local. Com as chuvas na cidade não haverá gramado que resista. A obrigatoriedade, movida pela falta de diálogo, também é motivo de revolta. Com base entre outras coisas no gramado, o Coritiba ganhou ação no TJD-PR para não alugar compulsoriamente o Couto Pereira que, de fato, era o melhor local para abrigar o Atlético.

Desejo, necessidade, vontade
O Paraná promete ir à justiça para valer sua visão. O Atlético é concorrente direto na Série B e lhe dar abrigo é lhe dar força. No Estadual, o Coxa fez isso. A intenção da CBF ao escolher a Vila, induzida pela FPF, foi clara: preferiu rusga com o Tricolor que com o Coxa. E irá sempre proteger seu parceiro na Copa, não tenha dúvidas. Talvez o Paraná não tenha a mesma força política do Alviverde, mas a novela está longe de acabar. Em um mundo ideal, Coxa e Atlético se acertariam, fariam promoções nos planos de sócios; o Coritiba ganharia valorização nos espaços publicitários do Couto, movimentando a praça mais que apenas uma vez por semana. Bom para os donos de lanchonetes do estádio. Rivais em campo, parceiros fora dele, com inteligência. Certo?

Manual prático de política
Errado. A falta de diálogo é o principal problema. Até essa semana, o público só soube uma versão da história. Mário Petraglia, presidente do Atlético, só se manifestou recentemente, em carta – sem contestações. Há quem assuma como verdade absoluta. Há muita verdade, mas, sem troca de idéias, é mono. Atitudes truculentas e impositivas distanciaram qualquer acordo. A rivalidade besta também: o Atlético jogou N vezes inteira no Couto; o São Paulo FC é tricampeão do Mundo alugando o Morumbi aos rivais. Mas se Petraglia, com seu estilo, não consegue nem agregar sua própria gente, iria conseguir fazê-lo com coxas e paranistas?

Em campo
Copa do Brasil: Coxa passa pelo Vitória, mas 0-0 fora não é tão bom como se supõe. Não pode tomar gols hoje. Precisa jogar mais que em Porto Alegre. Atlético em São Paulo é zebra, só vitória ou empate com mais de três gols. Zebras acontecem, mas eu não apostaria, embora será ótimo ver ambos nas semifinais.