A barreira final

Peço licença aos amigos acostumados a ler mais sobre futebol aqui no blog para falar de outro esporte: o poker, que nos últimos dias venceu mais uma etapa contra o preconceito.

Já não é notícia nova dizer que poker é esporte. Mas a vitória do paulista André Akkari em uma das etapas do Mundial de poker (WSOP) nos EUA ganhou dimensões até então não experimentadas para quem acompanha e segue a modalidade. Depois de ganhar espaço em quase todos os grandes veículos de comunicação, o poker finalmente chegou a Rede Globo, maior empresa do ramo no País, em um noticiário esportivo. Foi durante a realização do BPT (Brasil Poker Tour), um dos campeonatos brasileiros de poker (o outro é o BSOP, Brazilian Series Of Poker), no qual a emissora aproveitou para explicar o jogo e propalar a vitória de Akkari. Veja a reportagem, exibida apenas no Globo Esporte de SP, nesse link.

Curitiba, para quem não sabe, é celeiro de grandes talentos do poker nacional. O primeiro brasileiro campeão mundial é curitibano, Alexandre Gomes. Daqui já saíram dois campeões nacionais em etapas distintas, João Paraná e Helson Kupczak. Já tivemos o curitibano Gustavo Flessak como nono colocado no maior torneio das Américas, o LAPT (uma espécie de Libertadores do Poker). E no 1o. BPT, finalizado no último final de semana, o também curitibano Luiz Pheres beliscou um 3o. lugar, perdendo nos detalhes a mão decisiva para o dinamarquês Rolf Andersen, que acabou sendo o campeão da etapa. O resultado foi destaque no Jogo Aberto Paraná:

Neste mês, pela primeira vez o WSOP foi transmitido quase em tempo real pela ESPN no Brasil. Havia um delay (atraso) de 30 minutos na emissão das imagens em relação ao tempo de jogo, em virtude da segurança estratégica da partida. A ESPN havia parado de transmitir os eventos após a Black Friday, por recomendação da direção mundial do grupo, mas retomou em alto estilo. No BPT, a transmissão das partidas foi feita em tempo real, pela internet, pelo site TV Poker Pró.

Depois de ter espaço na Band, na ESPN e na Revista ESPN (aqui, reportagem com o americano oito vezes campeão mundial, Phil Ivey), o fato do poker chegar ao maior grupo de comunicação em uma reportagem positiva é o carimbo que o esporte precisava para afastar o preconceito de vez. Mas não é a barreira final.

Essa só será superada quando o jornalismo segmentado tratar não só das vitórias, mas também dos problemas do esporte. Como o bloqueio do site Full Tilt Poker em virtude de denuncias de corrupção fiscal nos EUA, ainda sem ter a versão dos fatos do braço brasileiro do site, parceiro da confederação nacional, posta a público.

Poker: avanço histórico no pano, retrocesso fora dele

André Akkari: 2o brazuca campeão mundial (foto: blog do aakkari)

Quando o KJ (rei e valete) de André Akkari superou o A8 do americano Nachman Berlin, com um bordo que trouxe dois Ks, a sorte ajudou o brasileiro a trincar e finalizar o adversário, que foi para o all in em vantagem (60% x 40% de probabilidades); mas ela não explica como, usando de muita estratégia e leitura de jogo, após quatro horas de partida mano-a-mano (heads up ou HU) Akkari virou uma diferença de quase o triplo de fichas que estavam de posse de Berlin.

A vitória de André Akkari no evento 43 do WSOP, maior torneio do Mundo no poker, é mais do que a segunda conquista mundial brasileira (a primeira, foi do curitibano Alexandre Gomes, em 2008); é a vitrine que o esporte precisava para mostrar o potencial brasileiro.

Sim, esporte. Causa espanto a alguns ler que poker, um jogo de cartas, é esporte. Pois além de muito estudo, estratégia, atenção e coragem para os movimentos certos, o poker exige ainda do jogador um ótimo preparo físico para estar apto a tomar decisões rápidas sob pressão por horas e horas. O torneio vencido por Akkari teve 2800 participantes e exigiu muito tempo de dedicação física, que só pode ser obtida com um ótimo preparo. Mnimizar o poker como esporte é o mesmo que dizer que um piloto de F1 apenas guia um carro e, por isso, não é esporte.

Akkari também dá mais um voto contra o preconceito. Foi-se o tempo que as mesas de poker eram locais de consumo de bebidas e cigarros. Hoje, a concentração e competitividade é máxima. O interesse cresce e aos poucos as barreiras caem. Muito pelo trabalho de Akkari, que há anos luta pelo reconhecimento que agora veio, em forma de bracelete, com o titulomundial. E, claro, com os mais de US$ 650 mil que faturou – premiação digna dos melhores circuitos de tênis.

Retrocesso

Se a vitória de Akkari mexeu com a emoção e o orgulho de todos os poker players brazucas, o mesmo não pode ser dito de mais um bloqueio do site Full Tilt Poker por parte da justiça. Agora, mundial. Com a medida, milhares de players brasileiros estão com fundos retidos no site. Dinheiro mesmo. Em contrapartida, em nova demonstração de lisura e gerenciamento de crise, o concorrente mais forte do FTP, PokerStars, já emitiu nota garantindo seus players e isonomia.

O problema não está no jogo e sim na maneira com a qual pessoas ligadas ao site usaram o mecanismo para lavar dinheiro. Evasão fiscal, entre outros problemas. Esse passa a ser o maior adversário do poker agora: a moralização. Se o esporte venceu o preconceiro e a ilegalidade, com pareceres de gente como Miguel Reale Jr., agora precisa vencer a corrupção e a evasão fiscal.

E no Brasil, caberá aos realizadores do BSOP (o Brasileiro de Poker) e à CBTH (Confederação Brasileira de Texas Holden) dar alguma satisfação aos usuários do Full Tilt, que patrocinou até agora o evento. Ainda hoje um amigo que estava classificado em um dos satélites para a próxima etapa do BSOP reclamava não saber o prejuízo que terá com o bloqueio, sem previsão de retorno.

Com a palavra, os organizadores.