Grandes “traíras” do futebol brasileiro

Nessa semana três “traíras” sacudiram o futebol mundial. Van Persie, guardou três no jogo decisivo do Manchester United contra o Aston Villa, levantando a taça do Inglês pela primeira vez, na primeira temporada do holandês nos Red Devils depois de sete anos no Arsenal. E Mario Götze não tirou o pé e ajudou Lewandowski a brilhar contra o Real Madrid, um dia depois do anúncio da transferência dos dois para o grande rival do Borussia Dortmund, o Bayern de Munique – que pode ser adversário na decisão da Champions.

E no Brasil? Quantos “traíras” já brilharam no rival? O Blog preparou uma seleção de 11 grandes viras-casacas no futebol brasileiro.

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Goleiro: Rafael Cammarota

Rafael e seu bigode texano

O primeiro “traíra” escalado é Rafael Cammarota. Bicampeão paranaense pelo Atlético em 1982/83, no memorável time de Assis e Washington, o goleiro disputava posição com Roberto Costa no Furacão. Fez parte da campanha semifinalista do Brasileirão em 1983, quando podia ter sido campeão brasileiro com o Rubro-Negro. Não foi e virou a casaca para conquistar o maior feito do Coritiba, rival atleticano: o título brasileiro de 1985. Rafael fez história no Coxa, sendo decisivo em vários jogos, em especial na semifinal com o Atlético-MG. Voltaria ao Atlético para ser campeão paranaense – na reserva – em 1990.

Lateral-direito: Nelinho

"Traíra", mas querido pelas duas grandes torcidas mineiras

O lateral que conseguiu chutar a bola pra fora do Mineirão, tamanha a força do chute, também tem no currículo a troca de camisas entre rivais. Carioca, Nelinho chegou ao Cruzeiro nos anos 70 e esteve no memorável time celeste campeão da Copa Libertadores de 1976. Entre uma Copa do Mundo e outra pela Seleção, passou a defender o Galo, pelo qual levantou seis canecos mineiros – todos contra o Cruzeiro.

Zagueiros: Mauro Galvão e Edinho Baiano

Gaúcho normalmente é Inter ou Grêmio; Mauro Galvão foi os dois

Revelado pelo Inter, foi campeão brasileiro invicto com apenas 18 anos em 1979, além de ganhar um tetracampeonato gaúcho. Chamou a atenção o suficiente para defender a Seleção Brasileira nas Olimpíadas de 1984 e Copa 1986. Natural de Porto Alegre, resolveu tentar a vida no Rio de Janeiro, onde defendeu Bangu, Botafogo e Vasco. Rodou também pela Suíça até virar a casaca: em 1996, voltou ao Rio Grande, agora para defender o Grêmio. O rival do time que o revelou é também – segundo atribuem – o time de infância de Galvão, que conseguiu ser campeão brasileiro e da Copa do Brasil pelo Tricolor.

Edinho Baiano: "poligâmico" e multicampeão

Edinho Baiano não chegou à Seleção, mas fez parte do supertime do Palmeiras-Parmalat nos anos 90. Deixou a capital paulista para encontrar seu grande amor: o Paraná. Não o Paraná Clube somente, mas todos os times de Curitiba. Edinho Foi tetracampeão paranaense pelo Tricolor, quando fez a primeira troca: deixou o Paraná e foi para a Baixada. Pelo Furacão, foi campeão estadual em 1998, acabando com um jejum de 8 anos. Foi para o Japão, faturar alguns dólares, mas a saudade dos paranaenses apertou e voltou para o Coritiba, em 2002, por quem foi campeão paranaense no ano seguinte. Pra não desagradar ninguém, ainda defendeu o Londrina – mas não levantou taça pelo Tubarão.

Lateral-esquerdo: Roberto Carlos

Um santista bem palmeirense que gosta do Corinthians

Dizem que o time de infância dele era o Santos. Mas depois de aparecer bem no União São João, o lateral Roberto Carlos (lembre-se do sotaque da bela italiana do comercial nos anos 90…) foi ser palmeirense. Viveu tempos áureos no clube, com um bicampeonato brasileiro e outro paulista. Rodou o Mundo, entre Internazionale, Real Madrid e Fenerbahçe e voltou para fazer parte da retomada corintiana. O projeto de internacionalização Timão, com ele e Ronaldo, fez alguns palmeirenses torcerem o nariz, enquanto era bem recebido no Corinthians. No final, após a eliminação na Libertadores 2011, acabou deixando o clube depois de supostas ameaças de torcedores.

Volante: Tinga

"Tinga, teu povo te ama!" - mas qual deles?

Apelidado Tinga por ser do Bairro Restinga, em Porto Alegre, Paulo Cesar Fonseca do Nascimento já ouviu até cantarem samba-enredo para ele nos estádios gaúchos. Mas é mais um na lista dos “traíras”. Começou no Grêmio em 1997 e conquistou duas Copas do Brasil (97/01) até deixar o Brasil para defender o Sporting de Portugal. Ao voltar, deixou o Tricolor de lado e foi ser Colorado – muitos dizem que é seu clube de infância – ganhando o título da Libertadores 2006 pelo Inter. Poderia ter ganho também um Brasileirão, mas parou num erro do árbitro Márcio Rezende de Freitas, que não deu um pênalti claríssimo em cima dele em um jogo decisivo com o Corinthians.

Meias: Paulo Henrique Ganso e Carlinhos Bala

Ganso é Paulo e São Paulo, mas têm outros santos na parada

PH Ganso era o grande amigo de Neymar. Juntos, aprontavam nos gramados do Brasil numa lua-de-mel que parecia não ter fim. Foram campeões da Libertadores 2011, Copa do Brasil 2010, Tri Paulista… quem poderia imaginar que esse triangulo amoroso iria acabar em rivalidade? Pois Ganso se machucou e passou apenas a ver o antigo parceiro brilhar. Se continuaram amigos fora de campo, dentro dele, Ganso optou por sair da sombra de Neymar e foi para o São Paulo. No primeiro encontro, ganhou moedas e aumentou sua coleção de palavrões. Mas, passado um tempo, já até tem título pelo Tricolor: a Copa Sul-Americana 2012.

Um Don Juan da bola

Carlinhos Bala começou (e terminou) sua odisséia pelos três grandes de Pernambuco no Santa Cruz, em 1999. Embora ainda esteja em atividade, o Don Juan do Recife futebolístico não deve voltar a vestir nenhuma das três camisas que usou, beijou e deixou boas lembranças e muitas polêmicas. Quatro vezes campeão pernambucano (2 pelo Santa, 2 pelo Sport), rodou pelo Recife todo entre algumas saídas. A de maior destaque, no Cruzeiro em 2006. Anote bem a trajetória de Bala no Recife: começou no Santa, foi emprestado ao Náutico, voltou ao Santa, saiu de Recife, voltou para o Sport, foi para o Náutico em seguida, saiu de Recife, voltou ao Sport, deixou a cidade novamente e voltou para o Santa Cruz. Ufa!

Atacantes: Reinaldo, Tuta e Emerson Sheik

"Foi só um lance... não teve amor...", dizem depois do flagrante

Haverá quem considere injustiça colocar o Rei Reinaldo na lista dos “traíras”. Mas serão os mesmos que jamais vestiram a camisa do Cruzeiro, como a foto acima mostra. Reinaldo é quase Deus no Galo, sendo o maior artilheiro da história do clube, com 255 gols (contando só o profissional). Foi sete vezes campeão mineiro e duas vezes vice-brasileiro. Saiu do Galo para rápidas passagens por Palmeiras e Rio Negro. Até que retornou à Minas… defender o Cruzeiro. Foram apenas dois jogos e nenhum gol – já estava machucado seriamente, o que abreviou a carreira dele aos 31 anos. Reinaldo estava sem clube e contou em entrevista no ano passado que “foi uma honra e um desafio”, lamentando apenas não estar em melhores condições na época. 

Tuta alegrou e calou atleticanos e coxas-brancas

Tuta defendeu 22 clubes em sua carreira com 18 títulos, mas foi em Curitiba que virou referência e até propaganda. Campeão paranaense em 1998 contra o Coritiba, encerrando um jejum do Atlético desde 1990, com direito a artilharia do campeonato, Tuta caiu nas graças dos atleticanos e foi para o Venezia, da Itália. Lá, viveu uma história incomum, ao fazer um gol em uma partida contra o Bari, quando foi repreendido pelos próprios colegas, que possivelmente tinham outros interesses. Girou por Vitória, Flamengo, Palmeiras e Coréia até voltar à Curitiba. Foi campeão paranaense novamente, desta vez em papéis inversos: pelo Coxa contra o Furacão. Num jogo de superação, o Coritiba segurou o poderoso Atlético de Jadson, Washington e Dagoberto com um 3-3, com dois gols dele. Na comemoração, fez o gesto acima, que ganhou outdoors na cidade em campanha de marketing do Coxa.

Sheik pode até amar o Fla, mas curtiu legal com o Flu

Emerson Sheik é Flamengo declarado, mas isso não o impediu de pular a cerca e ganhar o Brasileirão pelo Fluminense. Campeão Brasileiro pelo Rubro-Negro em 2009, ficou pouco tempo no clube de infância, por questões financeiras. Depois de uma rápida volta ao Catar (a origem do apelido), em 2010 passou a defender o Fluminense. Foi dele o gol do título brasileiro e a lua-de-mel com os tricolores era infindável. Mas acabou na Libertadores 2011, quando foi flagrado cantando uma música da torcida do Fla no ônibus do Flu, a caminho do jogo com o Argentinos Jrs. Dispensado, foi acolhido no Corinthians – que preferiu nem saber do passado dele no São Paulo, onde começou a carreira…

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Torcida do Galo levanta bandeira pró-diversidade

A capa da página no Facebook e seu slogan

Poucos ambientes são mais machistas que o futebol. A contradição é que poucos movimentos populares são tão democráticos quanto o esporte número 1 do Brasil, onde o gol une diferenças na hora da comemoração. Nesse meio, um grupo de mineiros, torcedores do Galo, resolveu se aventurar a assumir a bandeira pró-diversidade – e com o escudo do clube: a Galo Queer, sonoramente um trocadilho com Galoucura, a maior organizada do Atlético-MG. Queer é uma gíria britânica que significa literalmente “estranho” ou “esquisito”, mas passou a ser usada pela comunidade LGBT pela similaridade com queen, que significa “rainha”.

Conversei com MF (nome preservado), um dos organizadores da página na internet, que em três dias reuniu mais de 3.000 pessoas “curtindo” (até o fechamento do texto, eram quase 5 mil) e fez com que torcedores de outros clubes também entrassem no jogo (veja a lista abaixo). O que era pra consumo interno, virou movimento nacional. “Fiz a página apenas para divulgar entre meus amigos, pensando que algum dia poderíamos nos organizar pra fazer algo maior. Acho que atendemos a uma demanda silenciosa. Pelo visto, muita gente que gosta de futebol já queria dar esse grito contra o machismo, a homofobia e a intolerância e ficamos muito emocionados com todas as manifestações de apoio”, disse.

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Papo aberto: técnico fala sobre família e preconceito no futebol

Pela Copa, Corinthians manterá patrocínio mesmo sem receber

 

Evidentemente, nem tudo são flores. Houve quem achasse que se tratava de uma brincadeira de cruzeirenses, provocando os rivais. Houve também ameaças da própria torcida do Galo. “Sou atleticana desde que me entendo por gente e fiquei muito incomodada com a homofobia e o machismo generalizados. Estamos mexendo em um terreno muito machista e conservador. O problema são as ameaças que recebemos. As pessoas se oporem ao movimento é totalmente aceitável, mas ameaça não.”

Escudo alterado do Galo foi uma das polêmicas inicias do movimento

Por ora, tudo está no terreno da internet, mas os torcedores aguardam o apoio da diretoria atleticana mineira. “Ainda não recebemos uma resposta do time. Ficamos sabendo, no entanto, através da reportagem do Globo Esporte, que a Diretoria é favorável ao movimento e ficamos muito felizes.” MF faz questão de ressaltar que a “briga” é muito maior. O futebol é parte importante da cultura do País e, por isso, não pode ser excluído do tema. “Enquanto essas arenas de exceção continuarem existindo, arenas onde o preconceito é permitido, o preconceito e a intolerância nunca acabarão. Discutir machismo e homofobia no futebol é uma questão urgente.”

É comum o futebol ver provocações entre torcedores usando-se do estereótipo homossexual. Em Minas Gerais há o uso pejorativo da palavra “Maria” para ofender os torcedores do Cruzeiro; em São Paulo, os sampaulinos são chamados pelos rivais de “Bambis”. MF repudia a provocação pelo gênero: “Se você não é homofóbico nem machista, você simplesmente não usa tais termos para ofender alguém. A rivalidade pode se expressar de várias outras formas que não alimentem uma cultura opressiva.”

Levar a discussão e se fazer representar nos estádios é o próximo passo da Galo Queer. Mas o grupo ainda teme retaliação. “Frequentamos o estádio e temos sim esse objetivo. Mas queremos fazer tudo com calma. É preciso garantir a integridade física de todos os participantes. Infelizmente a intolerância é muito grande e, a julgar pelas ameaças que recebemos na página, sabemos que não será fácil fazer protestos no estádio.”

  • QUEM MAIS “SAIU DO ARMÁRIO”
     

​Cruzeiro Maria – Cruzeiro

Bambi Tricolor – São Paulo

Corinthians Livre – Corinthians

Palmeiras Livre – Palmeiras

QUEERlorado – Internacional

GaymioGrêmio Queer – Grêmio

Furacão: sem homofobia – Atlético

Flamengo Livre – Flamengo

Bahia Livre – Bahia

Vitória Inteligente – Vitória

Timbu Queer – Náutico

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Reflexo do rebaixamento, Atlético perde também no PPV

O site do Atlético divulgou os números que o clube recebeu da Globosat sobre a venda de pacotes Pay-Per-View em 2012. E o que percebeu-se é que não somente durante a “diáspora” rubro-negra o torcedor andou meio ausente.

Se a média de público do clube em Paranaguá girou em torno de 2 a 3 mil pessoas, imaginava-se que o atleticano tivesse aderido ao PPV para acompanhar o clube – o que não aconteceu.

De acordo com a tabela emitida pelo grupo de comunicação e publicitada pelo próprio clube, o Furacão despencou da 13a posição em 2011 para o 19o lugar em vendas nessa temporada.

O Coritiba, que quase chegou à Libertadores em 2011 mas não faz boa campanha em 2012, manteve-se na 15a posição em vendas de pacotes. Veja a tabela completa* e, logo abaixo, a análise:

Relegado à uma divisão inferior após 17 anos, vice-campeão estadual e com um começo claudicante na Série B, o Rubro-Negro perdeu praticamente um terço da arrecadação em PPV. Na contramão do rival até a metade deste Brasileirão, o Coxa teve um acréscimo nas vendas dos pacotes, mas não o suficiente para melhorar sua posição no ranking nacional.

Vice-campeão da Copa do Brasil por duas temporadas seguidas, pode-se imaginar que o crescimento em vendas veio com o tri-estadual e as boas campanhas na Copa, mas com o início claudicante no Brasileirão, o interesse esvaziou.

Numa análise global, percebe-se que o torcedor gosta mesmo é de time vencedor.

Maior torcida do Brasil, o Flamengo perdeu 10% da arrecadação com a campanha ruim que faz. O mesmo vale para o Palmeiras. Mal no Brasileirão, o time paulista perdeu duas posições e quase 30% do valor de vendas.

Já o Atlético-MG, que faz grande campanha, mostra a força nacional que tem e está catapultado ao 4o posto em vendas. O Galo, de acordo com a última pesquisa de torcidas do Datafolha, tem a 10a maior torcida do Brasil. O mesmo vale para o Vitória. O líder disparado da Série B praticamente dobrou seu volume de vendas em relação à 2011.

*Os números divulgados contemplam apenas os 18 clubes com contrato renovado por três anos na cisão do Clube dos 13.

Cruzeiro 6-1 Galo: indícios de manipulação entre mineiros ganham força

N.E.: Prepare o fôlego. A reportagem a seguir precisa de atenção máxima. Sua e das autoridades. Clique nos links para ler outras referências.

A goleada histórica do Cruzeiro sobre o Atlético Mineiro (6-1) que salvou a Raposa da Série B 2012 pode ter mais atitudes de raposa do que o Brasil pode imaginar. Tal qual a fábula infantil, a amizade (ou os interesses) entre alguns dirigentes do Galo e do rival podem apresentar mais do que uma simples jornada infeliz do Alvinegro mineiro. Pior para o Atlético Paranaense, que chegou à última rodada – por incompetência própria – contando com o resultado de outros. Caiu.

É o que pensa o jornalista e literário Idelber Avelar, professor da Tulane University de Nova Orleans, EUA e “Ex-atleticano [mineiro]. Eu não tenho dúvidas da entrega. Mas é difícil provar e isso cabe ao Ministério Público. Os indícios estão aí”, disse. Avelar e Fabiano Angélico, outro jornalista, também torcedor do Atlético-MG, criaram uma petição para que o Ministério Público investigasse o jogo. Cerca de 8 mil pessoas assinaram o documento em uma semana passada do final da partida. O documento tem valor legal.

O texto da petição se ampara em 8 suposições. As principais, resumidamente, nas palavras do redator, “[o Cruzeiro] cair para a série B, o que lhe traria milhões de reais em prejuízo; o resultado da partida, 6×1 para o Cruzeiro, é anormal, (…) Atlético [MG] apresentava a melhor defesa [no 2º turno] dentre dos 20 times do Campeonato e, em contrapartida, o Cruzeiro tinha o pior ataque; o BMG, instituição financeira que patrocina ambas as equipes, denunciada pelo Ministério Público por envolvimento no chamado “Mensalão”, o que levanta dúvidas sobre a idoneidade da instituição. Além disso, a referida empresa tem interesses econômicos em jogadores do Cruzeiro, que seriam desvalorizados se a equipe fosse rebaixada; Há relatos, incluindo um postado no blog de uma conhecida jornalista esportiva, a respeito de reuniões envolvendo os dirigentes dos dois times e o presidente do BMG (…) anteriores ao jogo.”

A anormalidade citada no resultado é histórica. Nos 454 jogos entre as equipes (estatística cruzeirense), o 6-1 aparece como a maior goleada de todos os tempos, exceção feita a Atlético-MG 9-2 Palestra Itália, em 1927, quando o futebol ainda era amador. O erro do zagueiro Réver [ver vídeo acima], eleito o melhor do Brasileirão 2011 pela CBF, no terceiro gol do Cruzeiro, não condiz com a qualidade técnica do título, ainda que seja apenas um momento infeliz. A familiares, o técnico Cuca, do Atlético-MG, confidenciou na chegada a Curitiba (onde reside) de que estava “p. da cara com alguns jogadores que só pensam em dinheiro.” Cuca não atendeu aos telefonemas para falar sobre o assunto.

Apostas online: índices anormais

O resultado também mexeu com a bolsa de apostas internacional em futebol, um dos índices que levanta mais suspeição quando de escândalos de manipulação de resultados. Os sites de apostas SportingBet, Betboo e BetClic atribuíam favoritismo ao Cruzeiro. Ainda que jogasse em casa, os números do campeonato apontavam o contrário para a Raposa. Mas o valor de retorno em investimento é medido pelo volume de apostas em cada time – quem tem menos chances e menos apostadores, paga melhor. E na cotação mais alta, cada real apostado no Cruzeiro rendia R$ 1,90 enquanto que para o Galo o retorno era de R$ 4,00. Para se ter uma idéia, no clássico paranaense entre Atlético e Coritiba – com características parecidas, com o mandante em pior situação – a cotação era de R$ 2,75 para o Furacão e R$ 2,40 para o Coxa.

Avelar ainda relembra que um costume mineiro ficou em suspeição em Belo Horizonte na véspera do clássico: “Na sexta, desapareceram das imediações do Café Nice (ponto de apostas de BH) os apostadores dispostos a cravar Galo.” Pode-se questionar que o esquema de apostas que daria mais lucro a quem apostasse no Atlético-MG, como é de praxe, mas Avelar rebate: “Quem iria por dinheiro bom num resultado definido?”

Em Minas, pouco ou nada se vê na imprensa sobre o assunto, ainda que seja de consenso público a possibilidade da entrega. As comunidades de torcedores de Atlético-MG e Cruzeiro no Orkut, com participação de quase 1 milhão de pessoas ao todo, estampam fotos acusando o presidente do Galo, Alexandre Kalil, o dono do BMG, Ricardo Guimarães, o ex-presidente do Cruzeiro, Zezé Perrela e o diretor do Cruzeiro e do Atlético-MG, Eduardo Maluf, de corrupção. O BMG é o banco envolvido no escândalo do Mensalão e patrocinou as camisas de 8 times do Brasileirão/11 (América-MG, Atlético-MG, Coritiba, Cruzeiro, Flamengo, Santos, São Paulo e Vasco), além de ter acordos financeiros com outros, como o Corinthians.

Na internet, torcedores do Galo revoltados

O BMG tem um fundo de investimento que controla direitos de mais de 50 atletas no Brasil, espalhados pelos clubes das Séries A e B. Os nomes estão em sigilo contratual, mas o Portal IG apurou que pelo menos 10 jogadores com contrato no Atlético-MG são do fundo. O dono do BMG, Ricardo Guimarães, é ex-presidente do Galo. No Cruzeiro, sabe-se que o atacante Wellington Paulista está ligado ao fundo.

Apesar do caso não ganhar as capas dos jornais mineiros (ou paranaenses, terceiros interessados) em Belo Horizonte é consenso que houve um acordo. Para Carlos Silveira, jornalista e torcedor do América-MG, “aqui em BH todo mundo fala. A costura pode ser até maior, já que muita gente poderia culpar o governador Aécio Neves [cruzeirense] de culpado pela queda de dois mineiros, pela estratégia errada de fechar o Mineirão e o Independência para obras simultaneamente. Ano que vem tem eleição e isso pegaria mal.” As poucas testemunhas e denúncias do caso são vistas apenas em redes sociais, com pouca credibilidade. Mas chama a atenção a data de um dos relatos apontados por Avelar, encontrado no Orkut, anterior ao jogo. “Tem quatro testemunhas que apontam nomes e como foi feito o esquema, mas tudo in off; quem se arriscaria, sem a proteção da justiça, a falar contra Ricardo Guimarães e Aécio Neves?”, questiona Avelar, que é editor da Revista Fórum, que traz artigo com bastidores sobre tudo.

Uma das poucas jornalistas a levantar o caso foi Ludymilla Sá, ainda no dia 2 de dezembro, em seu blog no jornal Estado de Minas: “O último dos absurdos ventilado aos quatro cantos da capital mineira é que o BMG vai trocar uma derrota alvinegra para salvar o Cruzeiro do rebaixamento em troca do anúncio de Diego Tardelli.” As negociações seguem para repatriar o atacante, ora no futebol russo.

A reportagem apurou que o presidente do Atlético Paranaense, Marcos Malucelli, entrou em contato com o presidente do Mineiro, Alexandre Kalil, para oferecer incentivo financeiro aos jogadores do Galo. Kalil recusou, com a premissa de que o jogo seria de vida ou morte para o Galo também. O Atlético ofertou, com sucesso, incentivo ao Bahia para que vencesse o Ceará, o que foi aceito. O Bahia fez 2-1.

No Paraná, vários dirigentes, advogados e personagens do futebol acreditam em irregularidade, mas não em conseqüências. Na semana posterior ao fim do Brasileirão, contatos com pessoas ligadas aos clubes locais trouxeram a suspeita viva também na cabeça até de quem não tem nenhum interesse no resultado. No Coritiba, lembrou-se do episódio em 2005, quando um Cruzeiro desinteressado perdeu para o São Caetano (0-3), o que acabou rebaixando o Coxa. As declarações de Alexandre Kalil pré e pós jogo foram vistas como jogo de cena por dois interlocutores de relevância no futebol paranaense, que pediram para não serem identificados. A única manifestação aberta foi do presidente da FPF, Hélio Cury, que limitou-se a responder “Estranho, né?” quando perguntado sobre o resultado. Em entrevista a ESPN, Kalil disse que pedirá ao Ministério Público de Minas Gerais que abra inquérito e ofereceu quebra de sigilo telefônico e bancário.

O procurador geral do STJD, Paulo Schimitt, disse que aguarda a abertura de inquérito do Ministério Público mineiro para pedir informações: “Vou falar com eles na próxima semana. A prescrição para corrupção é de 20 anos”, conta, sinalizando não ter pressa. “O jogo em si não me passou nenhuma impressão anormal. Está na pauta, mas não é prioridade. Vamos aguardar o MP-MG. Como é uma manifestação local lá, vamos esperar.” Schimitt diz que as penas são várias, caso se comprove corrupção, desde anulação da partida até exclusão dos clubes e jogadores do campeonato. “Mas é muito cedo para falar em pena.”

Envolvido em disputa política até o dia 15/12, o Atlético Paranaense, a princípio, não pedirá investigação oficial. Alguns políticos paranaenses, no entanto, já se manifestaram favoráveis a investigação, como o deputado Gustavo Fruet, notório coxa-branca. Na semana posterior ao clássico, na Liga dos Campeões da Europa, o Lyon goleou o Dínamo Zagreb por 7-1 e eliminou o Ajax, que tinha sete gols de saldo a mais que o time francês e perdeu por 0-3 para o Real Madrid. No entanto, no intervalo da partida Lyon e Dínamo, o resultado apontava 1-1. A partida já está sob investigação do governo francês e terá investigação da UEFA, a pedido do Ajax.