O valor de Ricardinho

Assista o vídeo abaixo.

André Vinícius é um dos primeiros reforços do Paraná para a temporada 2012. Sejamos sinceros: mesmo na base do Corinthians, onde teria poucas chances nos próximos anos até que chegasse ao nível de ser titular, estaria numa posição mais confortável que no atual momento do Tricolor. Sem hipocrisia, é público que o calendário do clube para 2012 é terrível, deficitário. Também é notório que o Paraná está com salários atrasados junto a vários funcionários. São os funcionários que fazem a manutenção do clube, dos vestiários, alojamentos, etc., sem contar o clube social – mas essa é outra história.

Portanto, topar jogar no Paraná hoje é negócio de alto risco. É se expor a enfrentar o Cincão EC numa tarde de quarta, entrar num ônibus e correr pro aeroporto para jogar contra o Ceará na noite de sexta – e sem saber se irá receber no fim do mês. Batalha perdida? Negativo.

O ideograma ao lado significa “crise” para os chineses. Mas é o mesmo que significa oportunidade (recomendo ler esse artigo). Talvez poucos jogadores se interessem em vestir a camisa do Paraná Clube atualmente, mas com a presença de Ricardinho no projeto, a coisa muda. É só ver no vídeo:  “Quando me falaram do Ricardinho aqui, já pesou”, disse André Vinícius. Outros mais virão, seguindo essa mesma linha. Ricardinho acrescenta esperança e um ótimo cartão de visitas ao projeto paranista.

O caminho é longo, sem dúvida. Não se sabe a capacidade do ex-meia como técnico, por exemplo. E o fato de alguns meninos da base do Corinthians estarem chegando à Vila Capanema não é garantia de sucesso. Mas no momento não há muito o que se fazer de diferente. Ao menos Ricardinho tem identificação com o clube, e, ao contrário de negócios anteriores, passa a impressão de que quer ajudar com esse projeto – mesmo que seja também interesse pessoal se lançar como técnico. É só olhar para a própria base do Paraná, escanteada desde que, sem dinheiro para alimentar os atletas, o clube trocou percentuais de jogadores por comida. Ao menos evitou-se a tragédia que se viu no Vasco.

Dito isso, chamo a atenção para uma coisa, diretamente ligada a gestão de futebol no Paraná daqui para frente. É mais importante contar com Ricardinho no clube do que cobrá-lo tão já por resultados. No futebol tudo é possível, mas a reconstrução do clube passa até pela compreensão de resultados ruins no início do trabalho. Mesmo que seja uma derrota para o Cincão.

Better man

A Vila Capanema recebeu na noite de quarta (9) a banda americana Pearl Jam; recebeu também a notícia de que Rubens Bohlen será o novo presidente do Paraná. É a vitória da chapa da situação, em uma eleição que teve menos de mil votantes, num universo de quatro mil possíveis.

A chapa vencedora já está no poder. De fato, a olho nu, vem desde Aurival Corrêa na mesma toada. É também a direção que deu fiasco no estadual/11; mas é a que reorganizou setores do clube, como o marketing, por exemplo. E dará poderes reais a Luis Carlos Casagrande – propriedade viva do clube –  e Paulo César Silva, no comando do futebol.

Andando pela Vila, durante o show do Pearl Jam, já sabedor do resultado das eleições, encontrei PC Silva. Ele estava sentado nas sociais, sozinho, anônimo. Parecia reflexivo. Olhava o palco e o show degustando uma cerveja – o que eu também fazia. Não esperava encontrar ninguém.

Então, me aproximei. Conversa rápida: ambos estávamos ali por outra razão. Eu, para ver uma das bandas que ajudou-me a formar o caráter; ele, para aliviar a pressão de uma eleição, no lugar que já é e será sua casa por mais um tempo. “Ganharam é? Parabéns.”, disse.

– Não sei se é uma vitória. É um baita de um desafio, isso sim.

A resposta, pés no chão, me fez lembrar algumas coisas. Paulão perdeu um neto esse ano. Golpe duro para qualquer um. Viu seu trabalho não dar os frutos esperados. Afinal, ninguém entra nessa pra perder. Mas, é claro, não quis deixar o clube. Sabe o preço. Desejei sucesso e disse que o papel da imprensa é seguir vigilante nas coisas que interessam ao público. Ganhei um abraço e segui para o show. Paulão seguirá na Vila mais do que eu.

Os erros da má gestão paranista estão aí, ninguém pode tapá-los. Mas tampouco podem negar que a realidade do clube é menor do que dimensionamos. Um exemplo? Menos de mil votantes na eleição. Outro? Média de público de 3926 torcedores, a 42a. do país em 4 divisões. Isso não diminui equívocos, mas deixa claro que a distância entre a paixão do torcedor e a realidade são grandes. Se há que se cobrar resultados de alguém por aqui, é de Atlético e Coritiba. O Paraná apequenou-se. Voltar, é papel que cabe a mais de uma pessoa. Cabe também à torcida.

Aí volto ao Pearl Jam e um dos seus hits – não ipisis literis – Better Man.

Bohlen, Paulão, Casinha, Romani e muitos outros erraram. E seguirão errando. É humano. Isso não é alvará para tal; falta visão profissional, capacidade de gestão e liderança, enxergar oportunidades.

Mas o Paraná “Can’t find a Better Man”:

Então, boa sorte aos que seguem.

Bad Beat*

Rink, entre o poker e o Atlético: retrato de escolhas erradas

Paulo Rink protagonizou um episódio marcante na dura caminhada que o Atlético faz rumo à Série B 2012. Foi logo após a derrota para o Avaí, 0-3, que matou a reação que o Furacão ensaiava ao vencer o Inter. Rink cobrou comprometimento do elenco rubro-negro, nominando (por indução do entrevistador) jogadores como Marcinho, Cléber Santana e principalmente Paulo Baier:

“Eu nunca tinha pensado que o Atlético ia cair. Mas o jogo de hoje fiquei com medo. Não foi só a derrota (…) tô envergonhado, foi um dos piores desempenhos que eu vi esse ano, não só na parte tática, mas também na vontade. Hoje não corremos, não ganhamos divididas. Tem que conversar com eles para ver o que aconteceu. Hoje nós perdemos na vontade dentro de campo, ninguém quis jogar”.

O disparo contra o grupo de jogadores foi feito nos microfones da Rádio Transamérica. Rink não está errado. Nem foi o principal culpado pela derrota em Florianópolis. Rink é só mais um personagem na epopéia de erros atleticanos em 2011. Ele, gerente de futebol do clube, dividiu seu tempo nas vésperas de um jogo que pode ter significado o rebaixamento atleticano entre a gerência de futebol e o poker, no Brazil Poker Tour, o brasileiro da PokerStars.

Incompatível com a função. Inadimissível para um gestor profissional. No caso atleticano, mais um episódio tragicômico.

Eu gosto de poker. Jogo, estudo, sou entusiasta. Até já joguei ao lado de Paulo Rink. Não há mal nisso, como não há quando Wanderley Luxemburgo joga, apesar do barulho feito quando o hábito do polêmico técnico do Flamengo veio à tona. Bobagem e preconceito.

Mas eu não jogo enquanto produzo o Jogo Aberto Paraná. Nem um gerente de futebol deveria dividir suas atenções com o principal torneio de poker do País, cuja inscrição custa mais de R$ 2 mil. Muito menos na tarde em que o gerente é a pessoa que melhor pode passar confiança aos atletas para o jogo decisivo, ou quando o gerente foi um ídolo com a camisa do clube. E talvez por isso esteja sendo poupado.

Rink é, na verdade, o terceiro gestor de futebol do clube – quarto, se contarmos que o presidente Marcos Malucelli assumiu a função. Dos donos desse cargo, o Atlético apresentou (só em 2011) seis treinadores, três preparadores físicos, mais de 40 jogadores em campo. O episódio protagonizado por ele demonstra o profissionalismo da gestão do futebol do clube. E aqui, não se julga intenção ou caráter; apenas o óbvio: amadoristicamente, o Atlético caminha a passos largos para a Série B.

Uma bad beat das mais difíceis do torcedor engolir. Mas poker – ou gestão – não é sorte; é habilidade.

*Bad Beat: termo que define a aparição de uma carta desfavorável a um dos jogadores contra muitas possibilidades. Um exemplo: quando de todas as cartas do baralho, só uma ajuda o jogador – e justamente ela aparece, contra as probabilidades.

Update: Rink desligou-se (ou foi desligado) da gerência de futebol durante a tarde desta terça-feira. Não se surpreenda se ele voltar ao clube na mesma função ou no departamento de futebol em 2012, com Mário Celso Petráglia.

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