Prazo de validade

Existe uma corrente no Coritiba que defende a saída de Felipe Ximenes do departamento de futebol do clube. Parte da torcida apoia e aquele ciclo de críticas é iniciado. Convenhamos, o Coxa brigou para não cair no Brasileirão, muito embora o que ficará para a história é o 13o lugar: nem lá, nem cá. Para alguns, o ciclo de Ximenes no Coritiba acabou. É hora de mudar.

Quando se propõe a saída de um profissional no futebol, a pergunta que sempre me vem a cabeça é: e quem assume? A partir dessa reflexão, é possível entender se as críticas são gratuítas ou se há uma necessidade real de mudança. Afinal, todos querem o melhor para si – no Coxa não é diferente –  e se o profissional em questão já não é o top no mercado, nada mais sugestivo que mudar, certo?

Ou não. Primeiro que no caso de Felipe Ximenes, isso não se aplica. Basta olhar um pouco além das divisas paranaenses para entender que quando clubes como Internacional e Flamengo o procuram, tops que são, certamente querem o que há de melhor. Ximenes é atualizado e sempre convidado a estar em palestras, circulos de discussões sobre gestão no futebol, etc. Ao lado de Rodrigo Caetano, é o principal nome brasileiro no segmento até então.

E isso porque, por mais que o coxa-branca não queira reconhecer, pegou um time do segundo escalão nacional e conseguiu resultados que poucos do primeiro escalão conseguiram, com menos dinheiro do que 12 outros clubes recebem, por um motivo ou outro. Deixou para trás São Paulo, Grêmio e Internacional, por exemplo, parando em duas decisões de Copa do Brasil contra Vasco e Palmeiras, que tiveram seus méritos na conquista, mas contaram com atuações ruins dos árbitros nos jogos das finais. Não fosse isso, talvez pudesse ter coroado a remontagem de um clube após os episódios de 2009 com ao menos um título nacional. Se é pouco, superou o maior rival em três estaduais e ainda levantou uma Série B no processo. Tudo isso com muito menos verba que alguns privilegiados, como Botafogo e Atlético-MG.

Atribuir um prazo de validade para Felipe Ximenes no Coritiba é um contra-senso. É não reconhecer as limitações do clube – o que nem de longe significa pensar pequeno. Com a verba que tem, Ximenes montou bons times. Se não atendeu a todos os anseios da torcida, é bom lembrar que outros com mais força também não o fizeram. Só um vence.

O fim do ano foi melancólico sim. Muito mais pela surpresa de quase se ver envolvido no risco de queda mais uma vez, acentuado com um resultado desastroso em SP contra o Corinthians (1-5). Uma noite ruim contra uma equipe que vai decidir o Mundial de Clubes, com a maior verba da TV e o maior patrocínio de camisa do País. Pensando bem, talvez haja um exagero na avaliação da desagradável goleada.

O Coritiba, com dívidas trabalhistas e no INSS, tem feito o possível para manter-se competitivo. Ximenes é o articulista principal desse desafio. Qualquer entrevista com Alex, ídolo que retornou, e se perceberá a importância da direção de futebol, respaldada pelo clube. Não se sabe se o time de 2013 será vitorioso. Mas percebe-se uma movimentação. O trabalho a longo prazo, cantado pela diretoria em 2009, está apenas na metade. Essa compreensão é importante, baseada nos fatos acima.

De todo modo, a opinião é livre. Só que é preciso coerencia. Criticos dizerem que o prazo de validade esgotou-se apenas pelo tempo é o mesmo que assumir que é impossível ficar no mesmo emprego por mais de 5 anos. Teremos pedidos de demissões em massa em Curitiba? Creio que não.

As 24h que mudaram o futuro do Atlético

Lopes: um chambão para afastar a crise (Foto: Heuler Andrey)

Saber o que um coxa-branca pensa de Ney Franco é fácil; mas não se surpreenda se atleticanos também forem elogiosos ao técnico que deixou uma marca de caráter e bom trabalho no Paraná. Hoje é cada vez mais raro ver isso. E o episódio da saída de Renato Gaúcho, o não de Carpegiani e a chegada de Antônio Lopes num verdadeiro Furacão de notícias, deixaram novas lições de comportamento no futebol.

É bem verdade que a atual diretoria do Atlético não prima pela organização e pelo planejamento. E que o mercado de técnicos é cruel para os dois lados: Renato e Carpegiani saíram por conta própria, mas Geninho, ídolo campeão brasileiro, foi dispensado com mais de 80% de aproveitamento por opção da direção. Então que não se queixe disso: cada um sabe onde o calo aperta.

Mas a saída de Renato tem mais coisas por trás que apenas uma insatisfação ou um problema pessoal. Conversei com três pessoas da cúpula atleticana e é unânime: o gênio do treinador é um problema sério. Renato Gaúcho é acostumado a paparico, assédio, badalação. Não se trata de viver a noite; é aquilo que muita gente reclama ao vir para Curitiba: difícil fazer amigos, há uma timidez natural dos curitibanos que impede a criação de ídolos. Aqui, nada presta. Bem diferente do Rio, onde Renato é rei.

Ele reclamou disso antes do Atletiba 347, e com razão. Disse que sentiu faltas das provocações dos grandes clássicos, de apostas e uma movimentação sadia. Eu entendo: sob o signo do puritanismo e da reserva moral, os personagens se calam. Nós, do Jogo Aberto Paraná, tentamos movimentar o jogo, mandando as belas Kelly Pedrita e Carol Boa de Bola para trazer bastidores e outros lados do clássico. Acredite: houve quem reclamasse, houve preconceito e falso moralismo. Tudo já superado, mas mostra o tamanho da hipocrisia e mediocridade de alguns do mercado da bola em Curitiba. Renato sentiu falta disso.

Mas não justifica o comportamento recente do treinador, agindo como criança mimada ao dizer que, mesmo com um salário de quase R$ 400 mil nas costas e um clube de 87 anos com um milhão de torcedores em suas mãos, “quem quiser que pegue”. Não, isso não é coisa de homem sério, comprometido. Desculpe, Renato, mas nessa você errou. Como errou ao destratar funcionários do Atlético, coisa que também ouvi nas conversas ao tentar entender a saída, quase ao estilo Lothar Matthaus – deixando a todos atônitos.

Do que está acima para a fritura pública de Madson (que todos sabem, não é santo, mas está correndo em campo, independente do que possa fazer fora dele), sem muitas explicações, foi um pulo. E, após soltar um “desse jeito eu não consigo trabalhar” num bate-boca por reforços com a diretoria de futebol, Renato somou as pontas e decidiu partir. Talvez na melhor hora, pois há tempo do Atlético se recuperar. E, para ele, sorte no futuro, que pode ser o Vasco, com Libertadores e no seio do seu amado Rio de Janeiro.

E então o Atlético foi atrás de Carpegiani. Sim, aquele que havia trocado o Rubro-Negro pelo São Paulo FC, depois de sair do ostracismo para brigar por uma vaga na Libertadores, abandonando o barco no meio do projeto. Não o condeno. Ele é profissional e tem que ir onde pagar melhor. Mas no mar de erros do Furacão, a volta dele, antítese da necessidade de compromisso que o clube precisa, poderia ser ainda pior.

Carpegiani chegou a ser confirmado por colegas mais afoitos. Houve quem o anunciasse como treinador. Entre os quase 50 telefonemas que dei ontem atrás da informação correta, pintou a dúvida: a diretoria queria o ex-técnico, acreditando ser ele, por conhecer o grupo, o único capaz de sair do buraco. Sabendo da crise atleticana, da restrição de 90 dias de contrato imposta pelo presidente Marcos Malucelli, e de que o Atlético arcava com quase 400 mil de salários para Renato, Carpegiani pediu 500 mil reais por mês até dezembro. Um milhão e meio de reais até o final do ano, com eventuais prêmios. Mais do que a patrocinadora-máster do clube paga anualmente.

Houve discussão entre os diretores, das 18h às 22h30, por telefone e presencialmente. E decidiu-se não pagar isso a Carpegiani, apostando num plano B. E aí surgiu Antônio Lopes, o mesmo que deixou o clube em 2010 após um empate com o Coxa na Baixada (1-1), em meio a problemas com Leandro Niehues e Ocimar Bolicenho. Entre 2000, 2005, 2007 e 2010, Lopes teve altos e baixos na Arena, com o vice da Libertadores, uma oitavas-de-final de Brasileiro e a fuga do rebaixamento em 2009 no currículo.

Mas esse não é o principal trunfo de Lopes nessa nova chegada. Ao telefonar para Lopes, o Atlético encontrou um homem solícito e disposto, que não quis discutir dinheiro e aceitou ajudar o clube pelo qual manifestou carinho (e agora, divide seu maior número de trabalhos com o Vasco). Disse-me, em entrevista ao Jogo Aberto Paraná: “Eu tenho carinho pelo Atlético e acho que posso colaborar. A situação é difícil, precisamos de 50% de aproveitamento. Mas o elenco é bom e no domingo vou para a beira do campo”.

Por essas e outras, ainda que por linhas tortas, o Atlético acertou ao trazer rápido alguém comprometido com a situação do clube. Se dará certo, não se sabe; afinal, a diretoria cansou de brincar com a sorte que, mais cedo ou mais tarde, falhará. Mas entre homens como Ney Franco e Antônio Lopes, sempre vale mais o compromisso que, no momento, é o que o Atlético mais precisa.

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