Mini-Guia da Copa do Brasil, fase semifinal

Pelo segundo ano consecutivo, pela quinta vez na história, o Coritiba é semifinalista da Copa do Brasil. Operário, Paraná e Atlético ficaram pelo caminho e cabe ao Coxa a honra de representar não só a si, mas também ao Paraná em uma série semifinal que ainda tem um gaúcho e dois paulistas.

Finalista em 2011 (perdeu o título nos critérios para o Vasco) o Coritiba enfrenta o São Paulo, clube mais poderoso do País, mas que está desacostumado com a Copa do Brasil. Nos últimos 10 anos, o São Paulo disputou a competição nacional apenas três vezes (estava na Libertadores nas demais). Ao Coxa, cabe o rótulo de azarão: entre os quatro, é o de menor investimento; no entanto, tem se acostumado com o formato da competição.

Coritiba x São Paulo

Ida: 14/06 – 21h – Morumbi, São Paulo
Volta: 20/06 – 21h50 – Couto Pereira, Curitiba

A exemplo do Coritiba, a melhor campanha do Tricolor Paulista na Copa do Brasil é um vice-campeonato. Em 2000 perdeu para o Cruzeiro na decisão. O São Paulo leva ligeiro favoritismo na série, mas não é um supertime; conta com dois jogadores de qualidade acima da média, como os atacantes Lucas e  Luís Fabiano. Ainda tem bons valores, casos do lateral-esquerdo Cortês, do meia Casemiro e dos ex-atleticanos Rhodolfo (zagueiro) e Jadson (meia). No banco, o experiente técnico Emerson Leão. Mas na temporada, altos e baixos. No Paulistão, o time parou nas semifinais. No Brasileiro, é 8 ou 80: duas vitórias em casa, duas derrotas fora.

Em casa, o SPFC está 100% na Copa do Brasil. Superou Independente-PA (4-0), Ponte Preta (3-1) e Goiás (2-0) – eliminou ainda o Bahia de Feira sem precisar jogar no Morumbi. Tem jogado no 4-4-2, com as principais jogadas saindo pelo lado esquerdo com Cortês ou em tabelas rápidas pelo meio, com o trio Casemiro-Jadson-Lucas.

Contra a Ponte Preta, o SPFC encontrou muitas dificuldades. Depois de perder o jogo em Campinas (0-1) saiu atrás no Morumbi e não conseguia furar a boa marcação da Ponte. Mas empatou em uma jogada de bola parada e contou com uma falha bisonha da defesa adversária. A partir dali, virou dono do jogo. Veja os lances:

Na história será o primeiro confronto pela Copa do Brasil. No geral, vantagem sampaulina: 11 vitórias do Coritiba contra 17 paulistas, e 10 empates. A maior goleada do confronto pertence ao Coxa: 4-0 no Brasileiro de 1972. No último jogo no Morumbi, 0-0; no último no Couto Pereira, 3-4 para os paulistas.

Se passar pelo São Paulo, o Coxa decide o título contra Grêmio ou Palmeiras.

Grêmio x Palmeiras

Ida: 13/06 – 21h50 – Olímpico, Porto Alegre
Volta:  21/06 – 21h – Arena Barueri, Barueri

Muita tradição e rivalidade em campo. Duelo Luxemburgo x Felipão, 18 anos depois, com papéis invertidos. Leve favoritismo do Grêmio. Abaixo, dois grandes jogos entre os times, que entraram para a história, nas quartas-de-final da Copa Libertadores. Na ida, 5-0 Grêmio e vaga 100% garantida. Ou quase: o Palmeiras ficou perto de devolver o placar:

Yes, nós temos projeto

OU: COMO O CORITIBA CHEGOU A MAIS UMA SEMIFINAL DE COPA DO BRASIL

Projeto. Palavrinha mágica – e batida – no futebol nos dias de hoje. Todo mundo tem projeto. Até o ex-presidente do Corinthians, Andrés Sanches, que destratou o sistema Barcelona de futebol mas, convenhamos, de Ronaldo pra cá colocou o Timão em outro patamar. É projeto pra cá, projeto pra lá. Venceu, o projeto está no caminho certo; perdeu, “calma, que o projeto é longo.”

Mas o que é projeto? E o que explica o Coritiba, orçamento 1/4 do que recebem São Paulo e Flamengo (por exemplo) chegar pelo segundo ano seguido à semifinal da Copa do Brasil – a quinta na sua história? É o mesmo sistema que vinha sendo criticado no Paranaense?

Projeto no futebol não pode se basear no resultado, mas tem que ter o resultado por finalidade, capicce? Ferran Soriano, ex-diretor do Barcelona, ensina em seu livro “A bola não entra por acaso”, que quando John Terry partiu para a cobrança do pênalti decisivo contra o Manchester United em 2008, escorregou e perdeu a chance de ganhar a Champions League, que o futebol é feito de escolhas e acasos. As escolhas corretas reduzem os acasos. Talvez Terry, capitão e formado no Chelsea, não fosse o mais indicado a bater o pênalti mais importante da história do clube naquele ano. Estava emocionalmente muito envolvido. O tempo passou e o projeto do Chelsea, que na verdade é um aporte pesado de dinheiro, acabou vingando em 2012. Mas, me cobrem no futuro, o Barcelona, que caiu para o mesmo Chelsea nesse ano, mas tem um projeto de identidade e longo prazo, vai seguir sendo o melhor; o Chelsea, envelhecido, terá que gastar mais para ter um time campeão novamente.

Ok, e o Coxa? Bem, não é uma coincidência o Coritiba chegar pelo segundo ano seguido à semifinal da Copa do Brasil. Se pegou uma chave “fácil”, ótimo; o Botafogo, com maior investimento, esteve na mesma chave e caiu. Se será campeão, é outra história: entre os quatro que devem chegar (escrevo antes de Grêmio x Bahia e aposto nos gaúchos) é o que tem menor poder financeiro e está levemente abaixo do São Paulo tecnicamente. Mas ali no campo, tudo é possível.

O Coxa, vale relembrar, ressurgiu das cinzas em 2010, com a entrada de Vilson Ribeiro de Andrade na vice-presidência. Esteve às portas da falência, viveu uma queda traumática para a Série B no ano do centenário do clube e apenas quatro anos depois de já ter caído. Em 2005, quando caiu pela primeira vez nessa sequência, tinha no comando um presidente com personalidade forte, que partiu para o atrito com a torcida diversas vezes. Era comandado meio a esmo: Giovani Gionédis fazia o que ele achava correto, apostando na velha guarda para a montagem do time. Caiu e voltou, dois anos depois, com um time montado só com a base. Mas não era um projeto: já com Jair Cirino no comando, caiu de novo em 2009 quando as vaidades foram maiores que o clube. Todos queriam tirar uma casquinha, fazer campanha. Uma estrela desagregadora no elenco, algumas panelinhas, comando dividido e fraco… deu no que deu.

Na época, Felipe Ximenes já era diretor do clube. Mas estava com o trabalho suprimido pela chegada de João Carlos Vialle, histórico coxa-branca, diretor de futebol à moda antiga. Ximenes me revelou que pediu para ir embora duas vezes. Cirino o impediu. Quando o clube foi rebaixado e poucos restavam para querer assumir, Ximenes atendeu novo pedido de Cirino, que por si próprio já atendera a um desejo de Andrade: ficar para resgatar a própria imagem. Nos bastidores, Cirino é muito bem-quisto por todos. Mantido no cargo, voltou à elite com um título estadual e o bi da B de cabo a rabo, com direito a 28 jogos fora de Curitiba.

Àquela época, o Coxa já construía o que se vê hoje. Todo jogador contratado é levado a conhecer a história do clube. Andrade e Ximenes se reúnem com atleta e empresário e querem conhecer o perfil profissional do jogador. É bom jogador? É boa pessoa? É agregador? Tem caráter? Quer vencer na vida? Essa linha pesa na impressão que ambos têm do jogador antes de bater o martelo. Previamente, são escolhidos pelo padrão técnico e tático. Andrade era da arquibancada nos anos 70, de supremacia coxa. Um time técnico, com meio campo forte e ataque rápido. Hoje, escolhe jogadores com características que atendam o Coxa que o torcedor quer ver em campo, com um estilo de jogo.

O técnico tem de ser uma pessoa que dirija o elenco, mas seja acima de tudo bom funcionário. Entenda que o clube precisa negociar e não fique pedindo reforços. E entenda como o time deve jogar. Ney Franco primeiro, Marcelo Oliveira agora. Pessoas tranquilas, competentes, e que deram um padrão de jogo ao time. Que sim, perdeu peças – e ainda não repôs a altura algumas – mas segue numa batida firme. Marcos Aurélio foi liberado ao Inter porque o clube via em Everton Ribeiro um jogador com características parecidas. Demorou, mas ele vem rendendo. O goleiro Edson Bastos só foi liberado agora porque já está com uma idade em que precisa jogar para ganhar melhor – está perto de parar. E porque Victor Brasil se apresenta como um bom banco.

Salários em dia, gestão de marketing correndo em paralelo, com Doth Leite, completam o projeto alviverde. Esteve perto de ir à Libertadores por duas vezes em 2011; perdeu uma em casa e outra em um clássico. Sem rompantes emocionais, seguiu o rumo.

Nem tudo é perfeito; existem erros, escolhas questionáveis, parcerias, posturas diversas. Mas, em linhas gerais, o Coxa tem um norte e continua na mesma batida. Raramente se envolve em polêmicas, os dirigentes não vetam entrevistas ou se escondem de certos temas. Quando questionados, apresentam suas versões. E, o mais importante, o time têm mantido a hegemonia local e chega de novo à uma reta decisiva nacional.

Projeto, de fato, é isso.

Abrindo o Jogo – Coluna no Jornal Metro Curitiba de 23/05/2012

O estádio, parte 178
A CBF indicou a Vila Capanema para três jogos do Atlético na Série B. Acertou no atacado, errou no varejo. Não há solução fácil para a questão, pendente – acredite! – desde 2007, quando a Arena confirmou-se sede da Copa-14. O acerto da CBF: o Atlético é parceiro da entidade, da Fifa e do Estado na realização do evento. Sim, se propôs a isso e terá benesses inegáveis. Tem ainda ônus que tem pago sozinho, como se fosse dono do evento (não é, embora a classe política omissa faça questão de referendar isso). O Atlético precisa jogar em algum estádio e em Curitiba. A política é o que pega.

No varejo…
O erro é a escolha do local. A Vila está com o gramado ruim e abrigará 10 jogos em 25 dias, incluindo uma data conflitante em dois jogos do Paraná, em 09/06: encontros com o Guaratinguetá e o Grêmio Metropolitano – palmas à FPF, que não antecipou a B local. Com as chuvas na cidade não haverá gramado que resista. A obrigatoriedade, movida pela falta de diálogo, também é motivo de revolta. Com base entre outras coisas no gramado, o Coritiba ganhou ação no TJD-PR para não alugar compulsoriamente o Couto Pereira que, de fato, era o melhor local para abrigar o Atlético.

Desejo, necessidade, vontade
O Paraná promete ir à justiça para valer sua visão. O Atlético é concorrente direto na Série B e lhe dar abrigo é lhe dar força. No Estadual, o Coxa fez isso. A intenção da CBF ao escolher a Vila, induzida pela FPF, foi clara: preferiu rusga com o Tricolor que com o Coxa. E irá sempre proteger seu parceiro na Copa, não tenha dúvidas. Talvez o Paraná não tenha a mesma força política do Alviverde, mas a novela está longe de acabar. Em um mundo ideal, Coxa e Atlético se acertariam, fariam promoções nos planos de sócios; o Coritiba ganharia valorização nos espaços publicitários do Couto, movimentando a praça mais que apenas uma vez por semana. Bom para os donos de lanchonetes do estádio. Rivais em campo, parceiros fora dele, com inteligência. Certo?

Manual prático de política
Errado. A falta de diálogo é o principal problema. Até essa semana, o público só soube uma versão da história. Mário Petraglia, presidente do Atlético, só se manifestou recentemente, em carta – sem contestações. Há quem assuma como verdade absoluta. Há muita verdade, mas, sem troca de idéias, é mono. Atitudes truculentas e impositivas distanciaram qualquer acordo. A rivalidade besta também: o Atlético jogou N vezes inteira no Couto; o São Paulo FC é tricampeão do Mundo alugando o Morumbi aos rivais. Mas se Petraglia, com seu estilo, não consegue nem agregar sua própria gente, iria conseguir fazê-lo com coxas e paranistas?

Em campo
Copa do Brasil: Coxa passa pelo Vitória, mas 0-0 fora não é tão bom como se supõe. Não pode tomar gols hoje. Precisa jogar mais que em Porto Alegre. Atlético em São Paulo é zebra, só vitória ou empate com mais de três gols. Zebras acontecem, mas eu não apostaria, embora será ótimo ver ambos nas semifinais.

Mini-guia da Copa do Brasil, fase IV

Tínhamos quatro, agora seguem apenas dois paranaenses na Copa do Brasil. Mas, pensando bem, não é justo o uso da palavra “apenas” para medir o desempenho de Atlético e Coritiba na principal competição nacional do primeiro semestre. Melhor pensar que, dos oito clubes restantes, 25% são daqui. Outros 25% são da Bahia, 25% de São Paulo, 12,5% de Goiás e 12,5% do Rio Grande do Sul.

Agora não tem mais moleza (se é que algum dia teve) e dentro do que eu entendo ser possível, a dupla Atletiba está atingindo o limite previsto: aposto em ambos nas semifinais e, dali por diante, o que vier é lucro.

Para isso, ambos têm que vencer seus desafios. Vamos então à analise, por ordem cronológica:

Atlético x Palmeiras

Ida: 16/05 – 19h30 – Vila Capanema, Curitiba
Volta: 23/05 – 22h – Arena Barueri, Baruei

O Palmeiras foi o algoz do Paraná Clube na fase anterior e voltará à Curitiba um pouco mais fortalecido do que quando pegou o Tricolor, ainda padecendo da eliminação no Paulistão 2012. Isso já ficou pra trás com as duas vitórias na fase anterior e com a chegada de um atacante que estreou na Vila Capenama: Mazinho.

Mazinho fez dois gols e participou de outro nos 4-0 sobre o Paraná. Contratado junto ao Oeste-SP, foi apelidado pela torcida palestrina como “Black Messi”. É rápido, habilidoso e bom de arremate. Os demais nomes perigosos do Palmeiras continuam sendo Marcos Assunção, Barcos e Valdívia. E Felipão no banco. Vale lembrar que o ex-coxa-branca Henrique, zagueiro, está fora do primeiro jogo, suspenso por expulsão.

Na história, vantagem alviverde: 17 vitórias contra 7 do Furacão – em 35 jogos desde 1968. O Atlético, que jamais passou para as semifinais, terá outro tabu: em dois confrontos pela Copa do Brasil contra o Palmeiras, foi eliminado nas duas vezes. Em 1992, duas derrotas: 0-1 e 1-3. Em 2010, uma derrota e um empate: 0-1 e 1-1 na Arena, com gol do atual coxa-branca Lincoln já no finzinho do jogo:

Mas a série ficou marcada mesmo pela briga entre o ex-atleticano Danilo e o zagueiro Manoel, ofendido pelo ex-companheiro, num episódio lamentável de racismo, lembrado nessa reportagem da TV Bandeirantes:

Se passar pelo Palmeiras, o Furacão pega o vencedor de Grêmio x Bahia nas semis.

Coritiba x Vitória

Ida: 16/05 – 21h50 – Barradão, Salvador
Volta:  23/05 – 22h – Couto Pereira, Curitiba

Tricampeão paranaense, o Coxa mal teve tempo de comemorar e já atravessou o País para pegar um vice-campeão estadual: o Vitória. O time baiano perdeu o título em confronto com o maior rival, Bahia, após dois empates. É possível que ainda sinta o golpe, mas está longe de ser uma galinha morta. Na fase anterior, superou o Botafogo vencendo o jogo no Rio de Janeiro. E tem o artilheiro do Brasil na temporada: Neto Baiano, com 31 gols entre Baianão e Copa do Brasil.

O Vitória é comandado por um interino, Ricardo Silva, que substituiu Toninho Cerezo no comando em meio ao Baiano 2012. O zagueiro Rodrigo Silva (ex-Santos), o volante Robston (sim, aquele) e os meias Geovanni (ex-Barcelona), Tartá (ex-Atlético) e Lúcio Flávio (que começou no Paraná) são os rostos mais conhecidos do rubro-negro baiano, que ainda tem os ex-coxas-brancas Rodrigo Mancha e Pedro Ken, autor de um golaço contra o Botafogo na última fase:

Na história, vantagem coxa-branca com 11 vitórias e oito derrotas em 26 jogos. As equipes nunca se enfrentaram pela Copa do Brasil.

Atual vice-campeão, o Coxa tenta chegar pela quinta vez na história às semifinais.

Se passar pelo Vitória, o Coritiba encara São Paulo ou Goiás nas semifinais.